domingo, 19 de Outubro de 2014

Gymnopédies paralelas, tangentes e secantes.

 
 
 
Madison Square, New York.

Sixth Avenue, New York.
 
Trump Tower, Fifth Avenue, New York.
 
Whitney Museum of Art, New York.

Composição mondrianesca com Rothko, Philadelphia Museum of Art.

Na Brooklyn Bridge, New York.

Park Avenue, New York.

432 Park Avenue, New York.

High Line Park, Tenth Avenue, New York, I.

High Line Park, Tenth Avenue, New York, II

Hudson River Park, New York.

Fifth Avenue, New York.





 
Fotografias de Eduardo Cintra Torres
 
 
 
 
 

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

A mística de Putin.




 
 
 
Comecei ontem a ler este magnífico livro sobre Vladimir Putin, que acabou de sair na Quetzal. Bem a tempo do aniversário de Vladimir, que foi comemorado das mais diversas formas. A mais original foi levada a cabo por um grupo de fãs originário das estepes geladas do Facebook. Decidiram retratar Putin como Hércules, em 12 trabalhos pesados. Aqui vem explicado o significado de cada quadro, alguns deles claramente antieuropeus e antiocidentais. Há quem se espante pelo facto de os artistas que retrataram Putin como Hércules acreditarem naquilo, naqueles pavorosos quadros. Definitivamente, não percebem a Rússia nem percebem Putin. Fazia-lhes bem a leitura deste livro. (desculpem a qualidade das imagens dos quadros, fracota, mas foi o que encontrei na Internet...)
 
 
 

 
 
 
 
 











 


 

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

A metamorfose.

 
 



No Babelia, do El País, de 11-Out.2014
 
 

A foto de Capa.

 
 
 
Falling Soldier, 1937, de Robert Capa (ou Gerda Taro?)
 
 
 
Falling Soldier, ou Morte de um miliciano, uma das imagens míticas da história da fotografia. Sobre ela, existem infindas teorias, algumas das quais asseguram que a fotografia foi encenada, tee veementemente refutada pelo biógrafo de Capa, Richard Whelan (aqui). E fazem-no, de um lado e doutro, com argumentos técnicos, que cada qual ajuizará se são ou não convincentes. O biógrafo de Robert Capa, Richard Whelan, sustenta que as imagens foram captadas em Cerro Muriano, Córdova, em 5 de Setembro de 1936 (ou 4 de Setembro?). Para o efeito, baseia-se no facto de, na sequência de fotografias conservadas no espólio de Capa, a imagem do soldado alvejado surgir imediatamente antes da série dedicada aos que fugiam de Cerro Muriano. Um ano depois, Capa daria uma entrevista ao nova-iorquino World-Telegram, sustentando que o soldado tombado se encontrava sozinho, naquela colina. Whelan provou não ser verdade: outras imagens suas revelam que, nas imediações, existiam soldados, que disparavam a partir de uma trincheira (cf. Richard Whelan, Robert Capa. A biography, University of Nebraska Press, 1985, p. 96).
          A imagem continuou, durante muito tempo, a ser catalogada como tendo sido captada em Cerro Muriano. Assim acontece no álbum esmagador organizado por Whelan: Robert Capa. The Definitive Collection, Pahidon, 2001, p. 81. Na Internet, existem trabalhos interessantes, que procuram descobrir e localizar os lugares onde Capa tirou as suas célebres imagens daqueles que, em choque e pavor, fugiam da frente de batalha. Capa não estava sozinho. Acompanhava-o Gerda Taro (1910-1937), e há não muito houve uma exposição imperdível, Esto es la guerra! Robert Capa / Gerda Taro, patente no Círculo de Bellas Artes de Madrid em 2010. Alguns fotojornalistas andavam naqueles lugares. Entre eles, Hans Namuth (1915-1990), que fotografou igualmente os refugiados da guerra. A publicação de outra obra de Richard Whelan, Robert Capa at Work. Thisis War; Photographs 1936-1945 (Steidl, 2007), com imagens inéditas, intrigou o historiador espanhol Fernando Penco Valenzuela. Como tinha dito Whelan, há imagens que mostram soldados nas trincheiras, provavelmente perto do falling soldier. Estudando profundamente o local, comparando a imagem com a topografia de terras de Córdova, Fernando Penco conseguiu determinar que a célebre obra de Capa fora tirada não em Cerro Muriano mas a quilómetros dali, em La Haza del Reloj,  Espejo. É essa a tese central do seu livro, interessantíssimo, La foto de Capa. Além da determinação do local, Fernando Penco aduz outros argumentos. Segundo ele, uma fotografia de Hans Namuth mostra – ou pode mostrar – Robert Capa e Gerda Taro dirigindo-se para a frente de combate, numa marcha de sentido inverso daquela que tomavam os civis apavorados. Afirma ainda que a fotografia de Capa foi, muito provavelmente, captada numa trincheira. E vai mais longe, colocando a hipótese de a imagem não ser da autoria de Robert Capa mas de Gerda Taro.
         Tudo isto poderá parecer demasiado técnico e irrelevante. Não é. Estamos a falar de um dos ícones fotográficos do século XX. Não por acaso, segundo Fernando Penco explica no seu livro, a tese que atribui a imagem a El Espejo (e não a Cerro Muriano) foi tomada de empréstimo, abusivamente, por um académico do País Basco. E o International Center of Photography, guardião do espólio de Robert Capa, mantém um silêncio ensurdecedor sobre todas estas questões. Este ano, no Museu Nacional da Hungria, por ocasião do centenário de Capa, esteve patente em Budapeste uma outra exposição imperdível, com um nome apropriadíssimo: Robert Capa / The Gambler. Capa foi um jogador de verdade, sendo viciado nas apostas em corridas de cavalos. Mas foi um jogador toda a vida, uma personalidade ímpar. Agora, joga ao gato e ao rato com a sua imagem mais célebre. Não sabemos se é da sua autoria, se é autêntica ou encenada, a data exacta e em que local preciso foi captada. As investigações prosseguem... Fomos entrevistar Fernando Penco Valenzuela, a quem agradecemos muito a disponibilidade para falar connosco. 
 
 
 
 
 
Comecemos pela controvérsia sobre se a fotografia de Robert Capa é ou não «autêntica». Na tua opinião, a imagem corresponde à realidade ou foi encenada?
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Muy probablemente, por las fechas en que se tomó – 4 de septiembre –  fue un posado. En esos días el frente de Espejo estaba inactivo.
 
Como defendes no teu livro La foto de Capa, a imagem foi captada em La Haza del Reloj e não, como se pensava até aqui, em Cerro Muriano. Como explicas que a imagem tenha sido situada em Cerro Muriano, em obras dos maiores especialistas em Capa, como Richard Whelan? Tratou-se de um erro do próprio Robert Capa?
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Whelan actuó casi razonablemente… Fue una entrevista que hizo a Hans Namuth en Nueva York, mientras preparaba su Biografía sobre Robert Capa, la que le llevó a Cerro Muriano. Namuth había fotografiado a una refugiada, la tarde del 5 de septiembre a las afueras de Cerro Muriano y esa misma mujer también fue retratada por Robert Capa. “De modo que si la secuencia del miliciano era inmediatamente anterior a la de los refugiados, luego entonces la foto se hizo allí”: es lo que dedujo Whelan.
El verdadero problema es que Richard Whelan nunca estuvo en Cerro Muriano y no pudo comprobar in situ que la foto se hubiera hecho allí. Además, la única imagen supuestamente perteneciente al carrete del miliciano que poseía referencias geográficas, la que aparecerá en This is war! Robert Capa at work con el fondo montañoso – fue la que nos llevó hasta La Haza del Reloj, Espejo – se mantuvo guardada durante años. 
 
 

Gerda Taro (fotografia de Robert Capa, 1937)

 
 
 
Mesmo quanto à autoria da imagem, subsistem dúvidas, tanto podendo a mesma ser de Robert Capa como de Gerda Taro. No entanto, qual é a tua opinião?
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En un fantástico y reciente ensayo sobre The falling soldier, su autor Eijiro Yoshioka – conservador de fotografía del Museo Fuji de Japón y amigo personal de Cornell Capa y de Richard Whelan – defiende abiertamente que la imagen se tomó con una REFLEX KORELLE y no con la LEICA, tal y como se pensaba. Si a las tesis de Yoshioka se une que los máximos expertos en Capa y Taro, Richard Whelan e Irme Schaber, respectivamente, atribuyen a Taro la REFLEX KORELLE y a Robert Capa la LEICA, quizá haya que ir pensando más en ella.
 


A imagem de Capa (em baixo) e uma fotografia do local tirada nos nossos dias (em cima)
 
 
 
De acordo com o teu livro, o resultado da sua investigação, feita em colaboração com o fotógrafo Juan Obrero Larrea, foi objecto de uma «apropriação», especialmente pelo professor Susperregui, da Universidade do País Basco. Como explicas que isto tenha acontecido? E porque razão o International Center of Photography não reconhece – como o fez o jornal El Periódico – que a localização em La Haza del Reloj se deve a ti?
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Son cuestiones que quizá no me corresponda contestar a mí. En cuanto a la primera de ellas, es obvio que no se ha actuado correctamente con un trabajo – el  nuestro – que, con sólo citarlo, hubiese sido suficiente. No es la primera vez que me ocurre esto; en otra investigación en la que pude descubrir a Robert Capa y a Gerda Taro yendo de espaldas, camino del frente de Cerro Muriano, cosa que se publicaba por primera bajo el título “Una sorprendente foto de Namuth” (26/04/2010) –véase mi web de investigación www.capaencordoba.com –y, más tarde en La foto de Capa, ha sido apropiada por expertos como Lefebvre, Lebrun o, de nuevo, Susperregui y lamentablemente tampoco se ha citado. Sin embargo, en mi último artículo “Gerda Taro: una fotógrafa olvidada”, en www.revistamito.com, yo si cité por ejemplo a Susperregui. Es evidente que cualquier trabajo científico serio y honesto, ha de mencionar la fuente.      
 
 
Fotografia de Hans Namuth.
Segundo Fernando Penco, o casal que caminha,
no lado direito da imagem, pode ser Robert Capa e Gerda Taro
 
 
En cuanto a que el ICP no reconozca nuestra investigación de Espejo es triste y duro. Ellos conocen el Informe, registrado en organismos oficiales, desde hace años y de alguna manera mantienen el contacto conmigo, mostrándose siempre interesados en mis trabajos sobre la foto. Aunque no todo es malo y autores como Yoshioka – quien dedica un capítulo de su ensayo a nuestra investigación– o, Marco Cicala, quien en colaboración con el mismísimo Mario Dondero, acaban de publicar en Il venerdí di Repubblica: “Anatomia di una foto”, artículo que también se hace eco de nuestro trabajo [ver o filme aqui].

 

 
 
 
 
Não existirão formas de aprofundar a tua investigação? Por exemplo, existirão notas ou cadernos pessoais de Robert Capa, de Gerda Taro ou  de Hans Namuth?
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Si hay datos en los que ahondar y que, sin duda, arrojarán luz. Creo que la imagen del miliciano aún guarda sorpresas… Por ejemplo habría que mirar a Chim – otra incógnita – o al Archivo Histórico del PCE, donde hay un importante número de negativos que muy probablemente salieron de las cámaras de Capa, Taro y Chim.
 
Sendo um historiador e também arqueólogo, e uma vez que a tua tese defende que Capa terá fotografado numa trincheira, não seria possível realizar escavações que permitissem a descoberta dessa trincheira em La Haza del Reloj?
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Sería necesario y es en lo que se está trabajando. Sabemos que ellas contienen una información, que será determinante. 
 
Realizou-se há pouco o primeiro encontro «Capa en Espejo»…
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Ya se celebró y, en lo que a la foto del miliciano respecta, mi conferencia se centró en los nuevos trabajos de Yoshioka y en la posibilidad de que la imagen, si se demuestra que se hizo con la REFLEX KORELLE, pudo haber sido tomada por Taro: pero esto es sólo una hipótesis, abrir un camino que ya no parece tan ficticio…   
 
Por último, uma questão mais geral: qual a relevância histórica de a imagem ter sido captada em La Haza del Reloj e não em Cerro Muriano? Pedia que explicasses aos leitores portugueses a importância desta diferença, isto é, se são localidades muito afastadas entre si, que papel tiveram na «frente de Córdova» na Guerra Civil, etc.
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La distancia es de unos 50 km, al suroeste… En 1936, el frente de Espejo era de los más subversivos y revolucionarios. Allí se daban verdaderos ejemplos de colectivización de la tierra y de reparto comunal. En mis estudios sobre las primeras fotos que Capa y Taro sacaron en la Guerra civil –Barcelona, frente de Aragón, Córdoba, etc. – observé que buena parte de ellas pertenecían a milicianos y libertarios, y el foco del anarquismo y del comunismo libertario en Córdoba, se hallaba precisamente en el frente de Espejo: ése, y no otro, fue el motivo por el que le dije a mi compañero de viaje Juan Obrero, que debíamos de escrutar a fondo tan indomable e interesante zona. 
 
 
 
 
Texto e entrevista de António Araújo
 
 
 

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

O valente soldado Wojtek - 2

 
 


 
 
 
 
         Tínhamos terminado a nossa primeira (e temerária) aproximação ao urso Wojtek abordando um tema candente: o papel higiénico soviético. Para que pretenda fazer gracinhas sobre esta temática, é sempre possível acompanhar esta acalorada discussão académica que, às tantas, se embrulhou no papel do papel higiénico na transição da União Soviética para a democracia (?!), com apontamentos doutos e de grande interesse sobre o papel higiénico nas diversas repúblicas socialistas e nos países-satélites: Lituânia, Polónia, Bulgária, Roménia, em todos estes lugares se suscitaram graves questões higiénicas após a perestroika.
 

 
 

 
 
 
         Quanto a Wojtek, foi um urso castanho que já morreu, pronto. Agora explicar por que é que existem filmes, vários sites, estátuas e um sem-fim de estátuas de Wojtek é que nos obriga a maçar um pouco a paciência dos leitores. Wojtek foi um urso-soldado, mas a utilização de animais na guerra sempre existiu. Um dos períodos em que o uso de bichos mais disputas acendeu foi durante a corrida ao espaço durante a Guerra Fria. Num livro fascinante que acabei agorinha mesmo de terminar, Soviet Space Dogs, e de queo jornal i já falou, explica-se, a dada altura, o avanço que os soviéticos ganharam nos seus voos orbitais ao apostarem em cães – ou, melhor, cadelas –, enquanto os americanos teimavam em lançar macacos no espaço, muito mais ariscos a viagens estratosféricas. Com esta macacada, perderam para a Laika. Não era a primeira vez que os soviéticos exploravam a fidelidade canina. Durante a 2ª Guerra, enviaram «cães-bomba» para a frente de combate, carregados de bombas e prontos a serem dinamitados à distância. Não se faz.   
       


 
         Os ingleses, de seu lado, tentaram utilizar «ratazanas-bombas», igualmente na 2ª Guerra. Pegavam nas ratas, enchiam-nas de explosivos e largavam-nas no meio das fileiras nazis (a história é mais complicada, mas basta ficar com a ideia). Os norte-americanos, por sua vez, quiseram usar «morcegos-bomba», uma ideia concebida pelo cirurgião-dentista Lyttle Adams em 1942 (só a mente cruel de um dentista seria capaz de arquitectar um plano tão sinistro). A ideia foi levada à Casa Branca e o Presidente Roosevelt aprovou-a. Pois lá foram buscar morcegos a umas grutas no Texas, para os lançar com bombas incendiárias sobre o Japão. Desconhece-se a razão do abandono deste projecto, que, se tivesse ido avante, suscitaria certamente um belo efeito hollywoodesco  nos céus nocturnos do Império do Sol.    
         A história de Wojtek é diferente – e comovente. Corria o ano de 1942 e o mundo andava todo à tapona. Numa toca para ursos sedeada em Hamadan, no Irão, um rapazinho encontrou um ursinho. A mãe tinha sido abatida, o urso era um menor em risco. O rapazito iraniano vendeu-o a uma jovem refugiada polaca, de nome Irena Bonkiewicz, que andava pelas montanhas Elbruz a fazer aquilo que os polacos geralmente fazem: fugir do exército russo. Nesse ano de 1942, na sequência da libertação de milhares de polacos dos campos da Sibéria, os refugiados escolheram o Mar Cáspio na sua rota de fuga, procurando chegar ao Irão. Na altura, estava a formar-se, sob a égide dos ingleses, um exército polaco no exílio, que logo adoptou o urso. Imagine-se, para quem fugia dos horrores das estepes siberianos, o lenitivo que terá sido encontrar uma bola de pêlo daquelas, danada para a brincadeira. O ursito, com menos de um ano de vida, tinha algumas dificuldades em ingerir alimentos. Alimentaram-no a leite condensado que guardavam numa garrafa de vodca. Depois, já mais espigadote, ainda ganhou gosto à fruta, à marmelada, ao mel e, sobretudo, à cerveja. Tornou-se esta a sua bebida predilecta quando ainda nem idade tinha para ir à tropa. Mas foi.
 
 


 
 

 
         Prossegue a Wikipedia dizendo que o urso gostava de fumar o seu cigarrito ou de comer tabaco. Apreciava também as lutas inofensivas e, muito patusco e sociável, aprendeu a acenar sempre que alguém o saudava. As unidades militares que aí estavam estacionadas apreciavam sobremaneira o ursito reinadio, que a páginas tantas se tornou a mascote de vários regimentos. À conta disso, fez um tour pelo Iraque, pela Síria, pela Palestina e acabou no Egipto. O lendário 8º Exército inglês devia dirigir-se a Itália, para desbaratar os resquícios do fascismo e suas serpentes. Para conseguirem transportar o bicho num vaso de guerra, este teve que assentar praça como soldado do exército polaco, mais precisamente da 22ª Companhia de Abastecimento de Artilharia. Foi, pois, oficialmente integrado no serviço activo, com o posto de soldado.
 
 


 
         Nessa qualidade, chegou mesmo a contar do rol dos soldados alistados, vivendo momentos de intensa camaradagem. Em Itália, Wojtek participou na mítica Batalha do Monte Cassino, transportando munições para a frente da refrega sem deixar cair uma só peça de artilharia – dizem. Esta deve ser verdade: se o valente soldado Wojtek tivesse deixado resvalar ao chão uma bomba, certamente alguém se devia ter aleijado à séria. Ora, tirando mortes e feridos, não consta que ninguém se tivesse magoado na tomada da abadia do Monte Cassino. O valor militar de Wojtek foi tal que a 22ª Companhia de Transportes passou a ostentar como emblema uma efígie de um urso a carregar munições bélicas.
 



 







 
 
         Com o fim da 2ª Guerra, Wojtek foi levado para a Escócia, permanecendo primeiro na aldeiazinha de Huns. Cada vez mais popular entre militares e civis, tornou-se um animalzito muito estimado, tipo Manuel Luís Goucha. A ponto de se tornar membro honorário da Polish-Scotish Association. Abandonou as fileiras em Novembro de 1947, para de imediato ingressar no Jardim Zoológico de Edimburgo. Recebia visitas frequentes de jornalistas e veteranos de guerra polacos, que lhe lançavam cigarros. Wojtek, além da cerveja, apreciava o seu cigarrinho, de quando em vez. Mas, em Edimburgo, como não tinha por perto um camarada d'armas que lhe acendesse os cigarros, comia-os. Com tão maus hábitos, não admira que tenha falecido aos 22 anos, em Dezembro de 1963. Na altura da morte, pesava 230kg e media cerca de 1,80m.
         Apesar de nunca ter conhecido Júlia Pinheiro, tornou-se uma estrela de televisão, com frequentes aparições na BBC, num programa muito popular para crianças. Poucos humanos terão sido tão homenageados como o valente Wojtek. E a moda continua, com centenas e centenas de novas aparições, vocacionadas em especial para o público infanto-juvenil.
Em 2009, o parlamento da Escócia evocou-o e, em 2011, a BBC escocesa fez um filme em sua honra, Wojtek – The Bear That Went to War. Placas e outra sinalética evocativa – no zoo de Edimburgo, no Imperial War Museum e no Canadian War Museu. Entre esculturas e estátuas, temos uma no Sikorski Museum, em Londres, da autoria de David Harding. Temos outra, esculpida em madeira, em Weelsby Woods, Grimsby. E outra, em Zagan, carregando bombas. Em Setembro de 2013, as autoridades municipais de Edimburgo decidiram erguer uma estátua de bronze à sua memória, na qual Wojtek e outro soldado caminhavam juntos (Peter Predys, o seu tratador), em alegre camaradagem, numa alegoria alegre do seu périplo do Egipto até à Escócia, com escala no Monte Cassino.



Museu Sikorski, Londres
 
 
Monumento a Wojtek, em Zagan



A estátua em madeira, em Grimsby
 
 
 
 


Estátua de Wojtek, Edimburgo
 
 

A estátua em Cracóvia, Maio de 2014

 
E há poucos meses – mais precisamente, a 18 de Maio de 2014 – foi inaugurada em Cracóvia uma estátua de Wojtek, em pleno Parque Jordana, um gesto aplaudido por um dos maiores historiadores da 2ª Guerra, Norman Davies. Veja-se aqui a edificação da estátua, e as pessoas, de crianças a veteranos de guerra, que festejaram Wojtek nesta ocasião.
 
 

 
 
 
 
 
 
 
Na Internet, então, o culto de Wojtek chega a raiar o fanatismo. Temos, pelo menos, três sites bem nutridos de informação sobre o urso descoberto numa cova por um rapazito iraniano. Por um lado, http://www.wojtekthebear.com/ Por outro lado, http://www.thesoldierbear.com/  Por fim, http://wojtek-soldierbear.weebly.com/
         Quem tenha paciência e curiosidade, deve percorrer estes sites. Num deles, chega a apresentar-se um mapa-múndi com as referências a Wojtek que foram feitas nos diversos pontos do planeta (aqui). E Portugal lá está, marcando presença com uma notícia saída no Jornal de Notícias (aqui). Para os seus irmãos em armas, foi lançado, em edição limitada, o exclusivo Álbum Wotjek, com cerca de 200 fotografias do bicho e das obras de arte criadas para o homenagear.
 



O Álbum Wojtek
 
         Perguntarão o motivo de tanto alarido em torno de um urso, para mais já falecido. O urso era uma mascote – e cumpria a função das mascotes de campanha. Era um talismã, uma pausa de paz entre a dor e a morte, um motivo de brincadeira. Para quem queira saber mais sobre mascotes de guerra, existe um livro de Jill Cooper, Animals in War, que acompanhou uma exposição sobre o tema, patente no Imperial War Museum. A propósito de Wojtek, é comovente ver as cartas, as  fotografias, os boletins militares dos seus camaradas d’armas. Também acontece por cá, fraternidades forjadas na frente de combate. É frequente vermos nos jornais anúncios de convívios do batalhão tal ou do regimento tal. Wojtek aprofundava essa camaradagem, era um traço de união com pêlo e quatro patas. Aos sites que o homenageiam, chegam mensagens pungentes. Esta, vinda do Canadá: «Olá, vi as fotografias de Wotjek na vossa página. Em três delas aparece o meu pai. É o homem não-identificado que está junto de Jan Modezelewski…». Noutra, vê-se um pai veterano e um filho mais moço posando junto à estátua de Wojtek no Museu Sikorski, em Londres. Depois, o que é espantoso, Wojtek foi popularizado sob as mais diversas formas, heroicizado até ao limite; e em todo o mundo!
 















 
 
         Podemos aqui acompanhar a viagem de Wojtek, que esteve numa terrinha junto ao Mar Cáspio, passou por Teerão, foi até Bagdad, estanciou em Damasco, saindo daí em peregrinação a Tel Aviv e Jerusalém. De seguida, Cairo e Alexandria. Un giro transalpino que envolveu Taranto, Nápoles, Monte Cassino, Pádua, Ancona com regresso a Nápoles, pequeno-almoço incluído. Embarque em cruzeiro com destino a Glasgow e travessia da Escócia com término em Edimburgo. Temos ainda, como se disse, o Álbum Wojtek, a 70 £, e uma galeria de aguarelas sobre o urso, de extremo mau-gosto.
         Livros, também os há. Em inglês: o clássico de Wieslaw Lazsocki e G. Morgan, Soldier Bear, de 1970. Em polaco, vários títulos, Para crianças, uma obra de Garry Paulin. Outra em inglês, mais recente, de Aileen Orr, Wojtek. Polish War Hero (ver recensão aqui). Outra ainda, também recente, de Bibi Dumon Tak, Soldier Bear, de 2011.  
         Do percurso por tanta homenagem e tantos sítios da Internet apercebemo-nos também que o urso exerceu outra função relevantíssima: contribuiu, de forma decisiva, para restituir aos polacos o orgulho nacional, à época muito ferido. Foi o símbolo da sua bravura e do seu patriotismo e, não por acaso, outros regimentos polacos tiveram mascotes – e ursos, em particular (com um companheiro de raça, de nome Michael, Wojtek envolveu-se em violenta escaramuça). Nenhum alcançou a fama de Wojtek, o valente soldado. Ainda hoje muitos se deliciam a contar histórias do bicho: só aceitava cigarros bem enrolados (cuspia os que não gostava), teve por amigo um cão de raça dálmata, levou uns belos coices de um cavalo e, desde então, passava ao largo sempre que via um equídeo, cavalo ou mula. Histórias pueris, talvez. Pelo meio, há comércio também: filmes, canecas, t-shirts, mouse pads, posters, de tudo se vende aqui. Mas, num balanço final, Wotjek foi um bravo: divertiu mulheres e homens cansados de guerra, continua a ser recordado. Nessa recordação, juntaram-se os que viveram os horrores da guerra, mas também os que deles descendem, filhos e netos. A par disso, um urso perdido nos areais da Síria ou do Irão é motivo de orgulho para várias nações civilizadas: a Escócia e a Polónia, à cabeça; mas também o Canadá e a Inglaterra. Para um urso órfão, falecido aos 22 anos, não é um pequeno feito.
 
António Araújo