segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Três escritores brasileiros.

 
 
 
Ariano Suassuna
 
 
 
EM CASA DE ARIANO SUASSUNA (1927-2014)
 
 
Foi por ocasião da minha primeira viagem ao Brasil, nas férias de Natal de 1975, como representante de uma organização cívica de que me haviam feito membro, recentemente, chamada Companheiros das Américas (Partners of the Americas). Segundo os estatutos, essa associação, inspirada na famosa iniciativa diplomática do Presidente John F. Kennedy, intitulada Aliança para o Progresso (Alliance for Progress), consistia em irmanar alguns dos cinquenta estados americanos com países da América Central e da América do Sul, e, no caso do Brasil, dado que, tal como os Estados Unidos, é uma federação de estados, irmanar um estado americano com um estado brasileiro. De maneira que foi assim que o Estado de Connecticut e o Estado da Paraíba se tornaram irmãos. A finalidade fundamental dessa irmandade consiste no intercâmbio profissional, académico e cultural entre os dois estados, fazendo assim, por exemplo, com que professores de universidades do Estado de Connecticut fossem ensinar, temporariamente, para universidades da Paraíba; com que estudantes de medicina da Paraíba viessem estagiar em hospitais de Connecticut; com que músicos, pintores, escultores atletas de ambos os estados estabelecessem intercâmbio cultural e desportivo. A fim de implementar o melhor possível esse programa, passei eu umas duas semanas das ditas férias em encontros individuais e colectivos com diversos representantes das referidas áreas...e de outras, tais como a da agricultura.
       Cumprida essa missão, aproveitei a oportunidade para fazer um pouco de turismo, tendo sido assim que um guia da Universidade Federal da Paraíba, por sinal um professor de Filosofia de origem portuguesa, me mostrou as principais atracções turísticas do Recife e de Olinda. Como se encontrava então a ensinar Estética e literatura na Universidade Federal de Pernambuco um dos escritores brasileiros vivos a quem eu então muito admirava, Ariano Suassuna, a ponto de haver incluído algumas das suas peças de teatro e o seu romance, Romance D’A Pedra do Reino, nos meus cursos de literatura brasileira, perguntei ao meu guia se me podia proporcionar um encontro com ele. Eu a fazer esta sugestão e ele a encaminhar-se para a universidade. Chegados ao Departamento de que Ariano Suassuna era membro, foi-nos dito que nesse preciso momento acabava ele de descer de elevador para ir para casa. Porém, como antes de nos dirigirmos ao Departamento tínhamos dado conhecimento na recepção do motivo que nos levava à Universidade, íamos nós a entrar no elevador quando ele ia a sair, à nossa procura.
Feitas as devidas apresentações, levou-nos para o seu escritório para conversar. E a propósito das apresentações, quando o meu guia, o tal professor de Filosofia, disse que o seu nome de família era Maia, Ariano Suassuna apressou-se a fazer votos, em tom de brincadeira, de que se não tratasse dos Maias da terra dos Suassunas, pois havia ódio velho entre essas duas famílias, assunto de que aliás trata, um pouco cripticamente, em Romance D’A Pedra do Reino, fundamentalmente autobiográfico, fenómeno para que já me havia chamado a atenção o meu bom colega e amigo Gerald Moser, professor de Português na Pennsylvania State University e pioneiro na promoção e na crítica da literatura africana de expressão portuguesa nos Eatados Unidos da América.
Que banquete de cultura popular nordestina Ariano Suassuna nos deu, servido de uma maneira ainda mais cómica e divertida de comunicar e contar estórias do que a que consta dos seus famosos autos de cariz vicentino, entre os quais ocupa lugar cimeiro O Auto da Compadecida! Neste contexto, informo que, a respeito deste auto, traduzido para diversas línguas e representado com grande êxito em vários países, e mais tarde transformado em filme, contou-nos ele, por exemplo, que dias antes havia recebido um convite, com tudo pago, já se vê, para ir assistir à estreia desse auto a Israel. Que, naturalmente, embora com certa pena, não lhe fora difícil declinar tão honroso convite: primeiro porque odiava avião e tinha horror de andar de avião, a ponto de um dos seus maiores desejos na vida era poder libertar o mundo de todos os aviões e de todos os arranha-céus; segundo, porque tinha outras razões ainda mais sérias para dizer não ao amável convite. Senão, que reparássemos bem na fisionomia dele. Com aquele seu nariz de judeu e com aquela sua compleixão facial de árabe, que imaginássemos por um momento o que lhe podia acontecer em Israel: ser liquidado pelos árabes por parecer judeu e ser liquidado pelos judeus por parecer árabe. Voltando-se para assunto mais relevante, mas igualmente tratado com leveza e em tom jocoso, expôs-nos, nas suas linhas gerais, a súmula do seu manifesto intitulado O Movimento Armorial, que orgulhosa e religiosamente conservo, com uma dedicatória sua, datada de 7 de Janeiro de 1975: “Para António Cirurgião, agradecendo o interesse que manifestou por meu trabalho, o abraço de Ariano Suassuna.” Dentro do contexto do movimento armorial, disse-nos que, se as condições lho permitissem, não seria professor universitário nem viveria no Recife. O seu ideal era viver no campo, no seio da natureza, um pouco à maneira dos pastores e dos agricultores das Eglogas e das Geórgicas de Virgílio. Mas a responsabilidade de pai de família impedia-o de realizar por então esse profundo desejo. Mas que esperava poder vir a realizá-lo num futuro não muito longínquo. Que em parceria com um cunhado seu, já tinha um grande rebanho de ovelhas, mas, segundo os cálculos feitos, ainda precisavam de mais umas centenas de cabeças, para poder dedicar-se exclusivamente a essa profissão.  
         A determinado momento, Ariano Suassuna olhou para o relógio e disse-nos que, apesar de ter o maior prazer em continuar a conversar conosco, eram horas para ir jantar, pois na casa dele, com a esposa e as cinco filhas (eram cinco, se bem me recordo), vivia-se a horário. Dito isso, perguntou-nos se tínhamos compromisso com alguém para o jantar. Que não, o que era a pura verdade. E que faz o Ariano Suassuna? Pede-nos que o acompanhemos, que vamos jantar com ele e com a família: que a mulher dele já estava acostumada a que ele aparecesse em casa com convidados para almoçar ou para jantar, sem avisar previamente. E assim fizemos. Sentados todos à mesa, após haver-nos apresentado mutuamente, Ariano Suassuna fez uma breve prece de acção de graças, com uma simplicidade enternecedora. Começava a sopa a ser servida, quando Ariano se volta para o meu colega da Universidade Federal da Paraíba e lhe pergunta pelo motorista. Que o motorista estava à nossa espera no carro. Ouvido o quê, Ariano pediu licença, levantou-se da mesa e, passados instantes, apareceu acompanhado do motorista, apresentou-o a todos e mandou-o sentar à cabeceira da mesa. Quem poderá jamais esquecer esse gesto de uma beleza evangélica? Eu jamais poderei esquecê-lo, tão fundo me calou na mente e no coração.
 
Jorge Amado

JORGE AMADO (1912-2001) NA “ÂGE DE LA SAGESSE”
 
         Em  Janeiro de 1982, vi-me convidado pelo Cônsul Geral de Portugal em Salvador, Dr. Malheiro Dias, filho do célebre diplomata e escritor português de princípios do século XX,  Carlos Malheiro Dias, por iniciativa e a conselho do adido cultural do Consulado Americano em Salvador, o Doutor John Dwyer, grande amigo meu e casado com uma antiga aluna minha na Universidade de Connecticut, a D.ra Rosa Veloso Dwyer. Vi-me convidado, repito e esclareço, para fazer duas conferências no Real Gabinete Português de Leitura de Salvador: uma sobre Camões e outra sobre Jorge de Sena. Para grande satisfação minha, a família Dwyer teve a amabilidade de me hospedar na casa deles, uma penthouse com uma vista fabulosa para a cidade e para o mar. Aí pelo terceiro dia da minha estadia em Salvador, a Rosa e o John decidiram dar uma festinha em honra do velho amigo e antigo professor. Festa simples, em família, com poucos convidados, para jantar e conversar. Festa inolvidável, porém. Presente, para agradável surpresa minha, enchendo o ambiente com a sua alegria palpavelmente irreverente, esfusiante e contagiante, estava o maior cantor da história e dos mitos, das glórias...e das inglórias da Bahía, o escritor do Brasil mais lido, conhecido e celebrado em todo o mundo: Jorge Amado. Foi no ano em que ele celebrou 70 anos. Bahía embandeirada em festa e mergulhada em multímodas comemorações jorgeanas durante 365 dias. Nem outra coisa era de esperar de quem se propunha festejar e honrar condignamente a maior atracção turística da Cidade de Salvador de Todos os Santos...e de muitos pecadores, como o autor de Gabriela, Cravo e Canela gostava de sublinhar, no seu tom festivo e carnavalesco. Confesso que eu ainda me não tinha convertido de todo à magia de Jorge Amado, quer dizer ao seu realismo mágico à brasileira, embora alguns dos seus romances fizessem parte obrigatória dos meus cursos sobre o romance brasileiro contemporâneo, entre os quais se contavam Jubiabá, Dona Flor e seus dois Maridos, e Gabriela, Cravo e Canela. É que o primeiro professor que me iniciou formalmente  na obra de Jorge Amado foi um brasileiro muito culto, mas também muito mineiro, o que quer dizer muito tendencioso: o meu saudoso Professor António Salles Filho, mestre exímio de filologia e de linguística. Com isto quero dizer que, para muitos dos intelectuais e homens de letras mineiros, em Minas Gerais faz-se literatura e artes a sério e em profundidade e no resto do Brasil faz-se...folclore e carnaval. Não posso esquecer-me que esse meu professor, na Universidade de Madison, em Wisconsin, onde fiz o meu PH. D. em Espanhol e Português, começou a sua primeira aula sobre Jorge Amado da seguinte maneira: a obra de Jorge Amado pode dividir-se em duas fases: na primeira tem ideias, mas não tem estilo; na segunda tem estilo, mas não tem ideias. Claro que Jorge Amado, muito vivido e espertalhão que era, sabia muito bem o juizo crítico que muitos faziam dele e da sua obra, sobretudo a crítica dita académica e universitária. E foi por isso que, em tom brincalhão, lá me foi dizendo, nessa noite e na tarde do dia seguinte (que ele me convidou a passar com ele e com a esposa, a Zélia Gattai, na sua casa de Rio Vermelho), que não era em vão que os anos tinham passado por ele. Mas vamos por partes. Ao convidar-me a passar a tarde com ele em Rio Vermelho, fê-lo mais ou menos nestes termos: - gostaria que amanhã viessem passar a tarde comigo, você e o John, à minha casa de Rio Vermelho, que é a única zona verde que o governador respeita. E feito e aceito o convite, no fim do serão, ofereceu-me um exemplar do seu livro autobiográfico, O Menino Grapiúna, em edição de luxo, com uma linda dedicatória, a que se juntou a do ilustrador desse livro, Floriano Teixeira, que também fora convidado para a festinha em minha homenagem, em casa da Rosa e do John. Informo, a propósito, que a dedicatória de Floriano Teixeira tem um significado muito especial. É que, além das palavras da praxe, desenhou um belíssimo passarinho, com ar muito digno e pensativo, o que, modéstia à parte, me sensibiliza pelo seu carácter original e peculiar. (Transcrevo entre parêntesis as respectivas dedicatórias: “Para António Cirurgião, na Bahia, com a melhor estima e admiração, o abraço do Jorge Amado. 1982 Salvador Bahia.”  “Para António Cirurgião, com o grande abraço do Floriano Teixeira. Salvador, 16/1/82.”)       
         Tal como ficara combinado, o John Dwyer e eu fomos passar a tarde do dia seguinte, 17 de Janeiro, a casa de Jorge Amado, em Rio Vermelho. Era Verão, e ainda por cima Verão da Bahía, e, por isso, não me surpreendeu ver o Jorge Amado em camisa de manga curta, toda florida, e em calções. Meus santos Orixás! Tanto quadro, tantas peças de escultura, tantos objectos de arte popular, numa casa cheia de luz, de plantas, de sol e da alegria hospitaleira de Jorge Amado e de Zélia Gattai!
           De muito se conversou, mas quero chamar a atenção para um ou outro pormenor mais relevante, na medida em que esses pormenores contribuem para definir um Jorge Amado que eu infelizmente desconhecia. O Jorge Amado marxista militante, deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, forçado ao exílio na Rússia e em países da União Soviética, autor de romances subversivos, quase panfletários, de tese, à neo-realista mais ortodoxa, era uma vez, passara à história: Fuit Troia. O Jorge Amado que encontrei nessa tarde, e já havia encontrado no dia anterior, tinha atingido l´âge de la sagesse. E esse estatuto fez ele questão de nô-lo traduzir em palavras e acções insofismáveis, começando por nos dizer a mim e ao John que tinha passado a manhã a escrever um prefácio para uma biografia do antigo presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek de Oliveira, de quem Jorge Amado nos disse maravilhas, passando depois a criticar, a zurzir e a ridicularizar, sem dó nem piedade, os meninos ricos do Brasil que ocupavam o tempo em passeatas frívolas e inconsequentes, fingindo de revolucionários esquerdistas, em vez de estudarem e trabalharem, a fim de realizarem o lema da bandeira do Brasil: Ordem e Progresso.
          Outra observação que desejo fazer, servindo-me, à guisa de parábola, de dois factos ocorridos nesse preciso dia, é dar o meu testemunho pessoal da fama internacional de Jorge Amado  (para já não falar da fama nacional), e do seu desprendimento das coisas materiais. Exemplifico. Durante a manhã desse dia apareceu-lhe em casa um empresário americano interessado em negociar um contrato no sentido de Jorge Amado lhe dar autorização para adaptar uma das suas obras para um musical na Broadway; e durante a tarde apareceu lá em casa um jovem casal da Argentina a pedir-lhe autorização para adaptar um outro romance seu ao teatro. E o curioso é que, através da conversa, o John Dwyer veio a depreender que a dita adaptação já tinha sido feita, o que levou o John a dizer ao Jorge (o John e o Jorge tratavam-se por tu) que não devia deixar-se explorar assim tão descaramente: que devia defender devidamente os seus direitos autorais.  Em resposta a este conselho amigo Jorge Amado limitou-se a observar que os jovens também tinham direito a governar-se; que, pelo que a si, Jorge, dizia respeito, já tinha mais do que aquilo que precisava para viver desafogadamente. E, proferindo estas palavras, sorriu e fez um gesto largo,  em que mostrava que nada lhe faltava naquela ampla, farta e benta casa.
 
 
José J. Veiga
 

ENCONTROS COM JOSÉ J. VEIGA (1915-1999)
 
         Durante umas férias de Natal, quando começava a preparar o meu curso sobre o conto brasileiro contemporâneo, deparei, casualmente, com três colectâneas de contos, da autoria de José J. Veiga, cuja primeira edição data, respectivamente, de  1959, 1966 e 1972: Os cavalinhos de platiplanto, A hora dos ruminantes, e Sombras de reis barbudos, os quais me eram totalmente desconhecidos. Lidos com certa sofreguidão, logo me dei conta de que eram dignos de figurar num curso dessa natureza. E a verdade é que os alunos saborearam esses contos diferentes, originais, dum realismo mágico sui generis. Lembro-me que a sua leitura e a sua breve análise me levaram a considerar José J. Veiga uma espécie de Kafka menor brasileiro, em tom festivo, fantasista, carnavalesco, brasileiríssimo.
         Por uma daquelas coindidências felizes e benvindas, resolvi ir passar ao Brasil as férias de Verão a seguir ao semestre em que dei esse curso (no primeiro semestre de 1977, se bem me recordo). Tinha acabado de chegar quando vim a saber, por meio de um antigo aluno meu e muito especial amigo, Dr. Armand Pereira, professor de administração pública na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, que o goiano José J. Veiga era o director da editora dessa instituição, sita no bairro de Botafogo. Havendo manifestado a esse meu antigo aluno e amigo a minha admiração pela obra desse senhor, ele apressou-se a apresentar-me a ele. E como se tratava de uma pessoa excepcionalmente amável e simpática, e também com bastante tempo para lazer, aproveitei a oportunidade para ter vários encontros com ele. Entre as muitas coisas de que conversámos, três factos me ficaram indelevelmente gravados na mente, que acho oportuno registar. O primeiro relaciona-se com a idade relativamente tardia em que ele, José J, Veiga, apareceu nas luzes da ribalta como contista, a nível nacional (nasceu em 1915 e a primeira edição da primeira colectânea de contos data de 1959, como foi referido acima). Ao perguntar-lhe pela razão de isso ter acontecido assim, ele respondeu-me que, ao verificar que praticamente ninguém se tinha dado conta da sua iniciação no mundo das letras, quando, bastantes anos antes, se lembrara de publicar uns contos em revistas literárias, decidiu passar a escrever – sempre muito pouco – para a gaveta.
         O segundo facto relaciona-se com a colaboração que José J. Veiga deu a João Guimarães Rosa na escrita do vasto, estilística e esteticamente subversivo e heterodoxo romance que lhe deu renome internacional: Grande Sertão: Veredas, cuja primeira edição é de 1956. Contou-me ele que Guimarães Rosa passava horas e horas a fazer e a desfazer as páginas desse complexo romance, fazendo lembrar Penélope a fazer e a desfazer as teias do tecido que nunca tinha fim. Escritas primeiro em plena conformidade com as regras fundamentais da ortografia e da sintaxe tradicionais, essas páginas passavam depois por metamorfoses sem conta até atingirem a sua forma final. Que às vezes Guimarães Rosa agonizava dias inteiros perante a página em branco e o parágrafo escrito primeiro em Português correcto e depois virado e revirado, vertido e subvertido de mil e uma maneiras.
         O terceiro facto relaciona-se com as cerimónia pública no dia em que ele, José J. Veiga, foi galardoado, em paridade com Ariano Suassuna, com um prémio, não sei de que associação cultural brasileira. Por qual das suas obras tenha sido premiado José J. Veiga confesso que não me lembro, mas do que sim me lembro é ele haver-me dito que Ariano Suassuna foi premiado pelo seu Romance d’ A Pedra do Reino. Quando chegou o momento de Ariano Suassuna ser chamado à tribuna para receber o respectivo prémio, aconteceu que, ao contrário do que se esperava – que ele puxasse de umas folhas de papel e passasse a ler um discurso de agradecimento ao digníssimo júri e à digníssima audiência - Ariano Suassuna saiu-se com um improviso tão engraçado, feito no estilo dos sábios matutos do sertão, de que a personagem Grilo do seu famoso Auto da Compadecida é o exemplo emblemático, que fez morrer de rir toda aquela gente. No momento em que a assistência teve a percepção que o improviso tinha chegado ao fim, levantou-se em peso para coroar com uma retumbante e sonorosa salva de palmas as palavras divertidíssimas de Ariano Suassuna. Porém, quando todos pensavam que ele ia abandonar a tribuna, sob o ribombar dos aplausos,  Ariano Suassuna introduziu os dedos da mão direita no bolso de dentro do paletó e pediu a todos que se sentassem, pois ainda tinha de ler-lhes o discurso que escrevera para a ocasião, como mandava a praxe. E leu e leu, numa voz e numa tonalidade tão sem jeito, que parecia um daqueles casos em que a assistência se sente mortificada pelo deplorável papel que o pobre orador é tristemente obrigado a fazer. Isto contou-me José J. Veiga, com visível pena de Ariano Suassuna, mesmo à distância dos anos e dos milhares de milhas que os separavam no espaço, rematando mais ou menos com estes termos: - “que pena que uma pessoa tão inteligente como o Ariano não se tivesse dado conta de que tudo o que dissesse para além do seu inesquecível improviso para mais não serviria senão para causar um tédio mortal aos seus ouvintes!”
 
António Cirurgião

 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

No 90º aniversário do Mein Kampf, de Hitler (4).

 
 
 

 

 

A história editorial do Mein Kampf

        

O programa político de Adolf Hitler, publicado em dois volumes, o primeiro em 1925 e o segundo em 1926, [1] foi escrito pelo futuro Führer quando este se encontrava preso na prisão-fortaleza de Landsberg am Lach (Baviera), após a condenação pelo tribunal a cinco anos de prisão como um dos promotores do putsch iniciado com uma manifestação que ocorreu na Bürgerbräukeller, uma cervejaria de Munique, em 8 de Novembro de 1923, que em pouco tempo seria destroçado e os seus principais instigadores encarcerados. Hitler e alguns dirigentes do partido nazi - de imediato dissolvido – seriam julgados a partir de 26-II-1924, e condenados em 1-IV desse ano por alta traição, cabendo ao futuro Führer uma das pena mais pesadas, de cinco anos por alta traição, tendo os quarenta detidos putchistas sido encarcerados em Landesberg, conseguindo embora Hess e Goering fugir para o estrangeiro.[2]

A mansuetude do sistema carceral permitia aos putschistas, no entanto, uma vida de certo luxo, tomando, por exemplo, Hitler, o seu pequeno-almoço na cama. Lia abundantemente, recebia e conversava com visitantes e amigos, o que lhe permitiria dizer que nunca na sua vida fora tão bem tratado num cárcere. Este remanso tranquilo permitir-lhe-ia entregar-se com entusiasmo, com a ajuda inicial do seu amigo íntimo Emil Maurice (1897-1972), guarda-costas e motorista,[3] e depois, sobretudo, a dada pelo seu fiel amigo Rudolf Hess[4] – entretanto capturado e levado também parta Landsberg -, na elaboração da sua obra, a bíblia nazi. Nesses meses de detenção, Hitler ditaria a sua obra de ódio e racismo nacionalista que sairia mais tarde, em 1925 e 1926, em dois grossos livros. Nesses meses de detenção, que terminariam pouco antes do Natal de 1925, Hitler ditaria a sua bíblia que sairia mais tarde, em 1925 e 1926, em dois grossos livros, beneficiando ambos os volumes de revisões e correcções de alguns colaboradores, que acabámos de citar (Maurice, Hess e ainda o Pe.Stemple, adiante  referido com mais detalhe).

 
 
 
Hermann Goering
 

O editor de Hitler

O título inicial que Hitler deu ao seu manifesto ideológico e autobiografia fora Quatro Anos e meio de Combate contra Mentiras, Estupidez e Covardia, enunciado que o seu companheiro de prisão e amigo Max Amann propôs que fosse substituído, por motivos comerciais, por Mein Kampf (O meu Combate). Amann, nascido em Munique em 24-XI-1891, católico, sargento durante a grande guerra, no regimento bávaro em que Hitler combatera, recebera a Cruz de Ferro pela sua actuação emo combate, seria um dos primeiros filiados no NSDAP (1921), sendo depois secretário-geral do partido (1921-23), dirigindo desde 1922 a Eher Verlag, a editora oficial dos nazis, pertencente de início a Franz II. Participante no putsch da cervejaria bávara, desde 1920, editor e director do diário muniquense Völkischer Beobachter, mais tarde, do semanário Illustrierter Beobachtar, mensário que se publicou desde 1926, além de ter acompanhado em Landsberg a redacção das memória/panfleto de Hitler, Amann seria depois o responsável editorial pelas inúmeras edições dos dois volumes do M.K., assim como do sua versão compacta num só volume (1930), sendo, nessa medida, o responsável pelo enriquecimento do Führer com os direitos autorias dessa obra que era a bíblia do nazismo, além de que foi designado, em 1933, presidente da Câmara de Imprensa do partido nazi, controlando 80% da imprensa do Reich, além de que velava ainda pela censura dos media do regime. Reichsleiter de toda a imprensa oficial, Amann, arquétipo do burocrata do III Reich, era um homem brutal, de escassos talentos como orador ou jornalista, até porque mandava escrever os artigos que se publicavam com o seu nome. Em 1948 foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados, falecendo em Munique, em 30-III-1957.[5]  

 
Hitler com Max Amann
 
As tiragens das edições do Mein Kampf (1925-1945)
 
          Embora Amann esperasse que se vendessem cerca de 230.00 exemplares no lançamento desse livro, uma vez que o julgamento dera a Hitler uma projecção publicitária retumbante graças à presença dos media alemães e europeus ante os discursos demagógicos e inflamados do réu durante os 24 dias do processo – o italiano Corriere della Sera, de 28-II-1924 sublinhava que a defesa tendia a transformar os acusados em acusadores, culpando von Kahr e von Lossow, que eram apenas testemunhas de acusação -, a verdade é que em 1925  a espessa obra de 400 páginas registou apenas uma venda de 9.473 exemplares, tanto mais que cada um custava 12 marcos, ou seja, o dobro dos livros alemães editados na época. Em 1926 publicava-se o segundo volume do M.K., de que se venderam 5.067 cópias, continuando as vendas a diminuir, facto que só se alterou com os progressivo e surpreendentes sucessos eleitorais do partido nazi nos anos seguintes, de tal modo que Amann optou por uma edição compacta, num só volume, em 1930, a 8 marcos apenas, que registou nesse ano uma venda de 54.086 cópias e, em 1932, 909.351, atingindo 300.000 de exemplares no ano em que Hitler foi nomeado chanceler.[6] Ao todo, ter-se-iam vendido na Alemanha 10 milhões de exemplares deste livro. Como resume o caso Karl Dietrich Bracher, um dos mais competentes estudiosos do fenómeno nazi:
“O putsch de farsa fizera de Hitler um mártir; o homem sem nome tornou-se conhecido e para muitos era o símbolo da sua busca cega de mudança. O seu primeiro e único livro publicado estava feito de modo a amedrontar qualquer pessoa sensível; primeiro vendeu-se pouco, mas em 1933 já vendera 300.000 exemplares e finalmente foi disseminado como a bíblia do III Reich. Muitos houve que, aquecidos num falsa sensação de superioridade, se recusaram a tomá-lo a sério. Falharam em reconhecer que os violentos planos para o futuro candidamente discutidos eram planos que se tornariam uma terrível realidade. E embora os que seguiam Hitler não incluíssem muitos leitores, ele valeu apesar disso ao seu autor substanciais proventos autorais. Em breve era dono de uma grande limousine e mais tarde de uma casa magnífica em Obersalzburg, perto de Berchtesgaden (…).”[7]
Em suma, Amann conseguira fazer de Hitler um autor de um sucesso editorial tal que ficaria rico com os direitos auferidos com a sua única obra,[8]  tanto mais que aquela demente bíblia racial e ultranacionalista era oferecida como prenda pelo Estado, desde 1936 a 1945, aos noivos quando se casavam. Foi ainda essa fortuna obtida como este best-seller oficial e de leitura obrigatória que o Führer, como se viu, compraria um retiro montanhês em Berghof, um chalet no cume do Obersalzberg, sobre a cidade de Berchtesgaden.[9] Apesar de ter vendido cerca de um milhão de exemplares em 1933 e 4 milhões em 1940, o M.K. era, paradoxalmente, um livro que quase ninguém lia, tanto pelo seu estilo empolado como pela ausência de estilo ou qualidades literárias, além de pejado de inúmeros erros gramaticais – o escritor alemão Lion Feuchtwanger teve a paciência de inventariar os milhares de erros no texto do Mein Kampf, apesar das diversas correcções que nele operaram os referidos revisores, o Pe. Stempfle e o crítico musical Czerny[10] –, esse indigesto panfleto vociferante e repassado de ressentimento, cuja escassa atracção de leitores Otto Srasser explicou nesta passagem do seu livro Hitler e Eu:
“Estávamos no congresso do Partido em Nuremberga, em 1927. Eu era membro do partido há dois anos e meio e encarregado do relatório. Citei algumas frases d o Mein Kampf, o que provocou uma certa sensação. À noite eu jantava com alguns camaradas do partido, Feder, Kaufmann, Koch e outros, os quais me perguntaram se eu tinha verdadeiramente lido o livro e nenhum deles parecia conhecer. Confessei ter extraído algumas frases significativas dele sem me ter ocupado de modo algum do texto, Foi uma hilaridade geral, de modo que se decidiu que o primeiro a chegar que tivesse lido o Mein Kampf pagaria a conta dos outros. Gregor Strasse, interrogado à entrada, respondeu com um não sonoro, Goebbels sacudiu a cabeça acabrunhado, Goering soltou um grande risota, o conde Reventlov desculpou-se dizendo que tinha falta de tempo. Nenhum contudo estava ao corrente da sanção se confessasse conhecer o Mein Kampf. Mas ninguém, lera o livro do chefe e cada um teve de pagar a sua conta.” [11]
 
 
Otto Strasser
 
 
 
Esta anedota divertida contada por Otto Strasser comprova até que ponto aquele best-seller era o livro mais ignorado da Alemanha, até entre nazis. A verdade é que, apesar de ser um crescente best-seller editorial, o Mein Kampf era um livro que raros liam, mesmo entre os seguidores do Führer. De qualquer modo, o Mein Kampf fez de Hitler o autor mais bem pago da Alemanha do seu tempo. Já Winston Churchill, escrevendo a sua A Segunda Guerra mundial, com a vantagem considerável de olhar para trás e poder abarcar com uma visão ao mesmo tempo mais ampla e melhor informada de todo o convulso, trágico e mortífero processo da tomada de poder na Alemanha pelos nazis e as tão cruentas guerras entre Gog e Magog dali resultantes, redigindo uma dezena de páginas brilhantes à carreira do Führer que se suicidara no Bunker, lembrava que os meses passados por Hitler em Landsberg tinham sido para lhe permitirem completar em esquema Mein Kampf, “um tratado sobre a sua filosofia política dedicado aos mortos do recente putsch. Tudo estava lá: o programa do ressurgimento alemão, a técnica de propaganda do partido; o plano para combater o marxismo; o conceito dum Estado nacional-socialista; a legítima posição da Alemanha na cúspide do mundo. Aqui estava o Corão da fé e da guerra: bombástico, ver, informe mas carregado da sua mensagem.
 
 
 
Colagem de John Heartfield
 
 
 
A tese essencial do Mein Kampf era simples. O homem é um animal que combate; portanto, a nação ou a raça, sendo uma comunidade de combatentes, é uma unidade de combate. Todo o organismo vivo que deixa de combater está também condenado à extinção. A capacidade combativa duma raça depende da sua pureza. Por isso a necessidade de se livrar dos elementos estrangeiros. A raça judia, devido à sua universalidade, tem a necessidade de pacifismo e internacionalismo. O pacifismo é o pecado mais mortal, porque significa a rendição da raça na luta pela existência. O fim último da educação está em produzir um Alemão que possa ser convertido com o mínimo de treino num soldado.(…). Nada poderá ser afectado pelas virtudes burguesas e paz e ordem. O mundo está agora a mover-se em direcção a uma total convulsão e o novo Estado Alemão deve ver nisso que a raça está pronta para as derradeiras e maiores decisões.”[12]
 
  João Medina
 


[1] I. Kershaw, na sua monumental biografia de Hitler, afirma que o primeiro volume do M.K. saiu em18-VII-1925 e o segundo em 11-XII-1926 (op. cit. p.242). Outros estudiosos e biógrafos de Hitler fornecem  datas diferentes ou não as mencionam: em 1925 e 1927, diz  Eberhard Jäckel, Hitler Ideólogue, 1973, p.7. James Taylor e Warren Shaw, The Third Reich Almanac, Nova Iorque, 1997, p.212, dizem-nos publicados em  1925 e 1928. Louis Snyder, na sua bem elaborada Encyclopedia of the Third Reich,, Iorque, Marlowe & Company,1989, p.24, dá as datas de 1925 e 1927. Robert  Wistrich, Wer war Wer im Dritten Reich. Ein biographisches Lexikon, Francoforte, Fischer Verlag Taschenbuch, 1988, não indica datas, limitando-se a referir Hess como o seu escriba (p.174). Alan Bullock, no seu conhecido estudo Hitler. A Study in Tyranny, Nova Iorque, Bantam Books, 1958, refere o M.K., o seu editor Amann e a colaboração de Hess, mas não menciona datas desta obra (p.53).  William L. Shirer, em Le Troisième Reich des Origines, Paris, Stock/Livre de Poche, 1969, ocupa-se do M.K, e faz a sua história editorial, dando 1925 como data o primeiro volume e 1926 como a do segundo tomo (pp.108-111). No seu já referido Hitler, vol.I, Joachim Fest historia a génese, conteúdo e edição da obra, mas aponta apenas 1925 como sendo o ano em que Hitler escreveu o primeiro vol. (pp.265; análise da obra: pp.242-265).
[2] Hermann Goering (Rosenheim, Alta Baviera, 1893 –Nuremberga, 15-X-1946), filho de um funcionário colonial  na Namíbía, famoso piloto da força aérea durante a grande guerra, na célebre esquadrilha Richtoffen, tendo recebido várias medalhas e a ordem de “Pour le mérite”, foi depois piloto privado na Dinamarca e na Suécia, casando-se aqui com a baronesa Carin von Kantzow, indo viver para a Baviera, matriculando-se  na Universidade de Ciências Económicas, onde se dá com Hess, travando conhecimento com Hitler em 1922, entrando para o NSDAP e sendo nomeado chefe da SA em Janeiro de 1923. Ferido no golpe da cervejaria, foge para a Áustria, depois na Itália e, por fim, de novo na Suécia, onde os tratamentos médicos à sua ferida do putsch de 1923 o tornam morfinómano. Amnistiado em 1928, regressa à Alemanha, sendo um dos 12 deputados nazis eleitos então para o parlamento, de que seria presidente em 1932 graças ao sucesso eleitoral do partido nazi, entrando para o primeiro governo de Hitler quando este foi feito chanceler por Hindenburg (1933). O seu nome foi apontado como o verdadeiro instigador do incêndio do Reichstag (27-II-1933), atribuído a um holandês com ligações com o comunismo, Marinus van der Lubbe e muitos outros comunistas, desde deputados marxistas do Reichstag a estrangeiros como Georgi Dimitrov (1882-1949) - julgado em Leipzig e por fim inocentado, num  processo que atraiu a atenção mundial e no qual o réu teve a coragem de confrontar directamente o próprio Goering em defesa da sua inocência, acabando por ser  absolvido e autorizado  a abandonar a Alemanha em 1934, indo então para URSS, vindo mais tarde a ser primeiro-ministro da Bulgária comunista desde 1946), detidos aliás por Goering como chefe da polícia de Berlim. Quanto a Marinus van der Lubbe, foi executado em 10-I-1934. Goering conhece entretanto uma fase de rápida promoção no III Reich, detendo, entre outros cargos políticos e policiais, o de ministro Prussiano do Interior, inaugurando ainda o primeiro campo de concentração em Oranienburg, cabendo-lhe dirigir em Berlim, em Junho de 1934, as acções da “Noite das Facas Longas”, sendo nomeado comandante supremo da Luftwaffe (1935), que, em 1939, seria a mais poderosa força aérea de combate mundial, ocupando doravante no regime hitleriano o lugar de número dois do regime. Tendo morrido (1931), a sua primeira mulher, Goering voltaria a casar-se(1935), agora com a actriz Emmy Sonnemann. Em 1936 é feito Feldmarechal do Reich, sendo o delfim designado do Führer. Nos anos 1940-41, na batalha da Inglaterra, a Luftwaffe é progressivamente anulada e as dificuldades da economia alemã de guerra agravam-se, apesar de Goering dirigir o empório industrial e petrolífero das “Goering-Werke”, perdendo o marechal progressivamente o poder, em proveito de outros sátrapas do regime, como Speer, o novo ministro do Armamento, Goebbels, o chefe da propaganda, ou Himmler, o dono da maquinaria todo poderosa da SS, um verdadeiro Estado policial dentro do Estado, dotada ainda de forças especiais combatentes, as Waffen-SS (SS Combatentes), além dos campos de extermínio genocidário e dum Ofício de Reinstalação da Raça, o RuSHA (Rasse- und Siedlungshauptamt, departamento destinado a conceder certidões de aurianidade aos candidatos a lugares na SS, além, de estabelecer homens seus nos territórios conquistados a Leste: veja-se Heinz Hühne, The Order of the Death’s Head, Nova Iorque, Ballantine Books, 1983 (maxime pp.87-105, 150-181,e 166-9 e 176-7). Goering retira-se então para o seu palácio de Carinhall (nome dado em homenagem à primeira mulher), coleccionando obras de arte espoliadas por toda a Europa ocupada, usando uniformes barrocos e entregando-se a uma vida de orgias, álcool e droga. Como Goering procurasse negociar a paz com os Aliados, Hitler demite-o das suas funções, excluindo-o do partido e ordenando o seu fuzilamento. Preso pelos americanos (9-V-45), tenta em vão falar pessoalmente com Dwight Eisenhower, sendo julgado em Nuremberga e condenado à morte pela forca, execução que consegue evitar, duas horas antes de subir ao patíbulo, suicidando-se (15-X-46) com um ampola de cianeto de potássio adquirida a um dos seus carcereiros. Veja-se Richard  Overy, Goering. Hitler’s Iron Knight, Londres e Nova Iorque, I.B. Taurus, 2012. Quanto às inúmeras obras de arte que Goering abundantemente espoliou, veja-se Jean-Marc Dreyfus, Le Catalogue Goering, Paris, Flammarion, 2015 (pref. de Laurent Fabius).
[3] Emil Maurice (Wetermoore, 19-I-1897 – 6-II-1972), um boémio e relojoeiro que se tornaria participante em diversos assassinatos nazis, tanto nas matanças da “noite da Facas Longas “ de Junho de 1934 e na misteriosa morte de Geli Raubal (18-IX-1931), sobrinha e amante do Führer, associado ainda a um bando de criminosos que levaria à eliminação do antigo Pe.Bernhard Stempfle, caso também relacionando com a morte de Geli. E.M. foi designado SS-Oberführer em 1937.
[4] Utilizamos duas traduções do M.K., de duas inglesas, uma outra francesa e, por fim, uma portuguesa: -My Struggle, Berlim, 1933, facsímil editado por Market Ashok Vihar, Delhi, 2015. -Mein Kampf, introdução de D.Cameron Watt (1928-2014), trad. de Ralph Manheim, Londres, Pimlico, 1994,  recentemente vertida para português em 2 vols, Mein Kampf/A minha Luta, introd. E notas de D. Cameron Watt, Lisboa, Glaciar, Lisboa, 2016, trad. de Maria Lin de Souza Moniz, 2 vols. , introd., vol. I, pp.11-67. -Ma Doctrine, Paris, Libraire Arthème Fayard, 1938, ed. não integral, mas acrescentada de alguns discursos de A.H., em Coblença, de 26-VIII-34, Sarrebrück, 1-III-35, Karlsruhe, 12-III-36, Francoforte, 16-III-36, Nuremberga, Setembro de 1936 e Setembro de 1937, bem como uma carta a Mussolini, de 2-III-1938, sendo o essencial do volume extraído do M.K., anotando o editor, no seu “Aviso”, que publica esta obra  “com uma preocupação de imparcialidade absoluta e cujo autor autorizou oficialmente a publicação” (pág. s.n.). Sempre que citarmos qualquer destas edições, indicaremos qual a que usou em cada caso. Sobre o M.K., veja-se: -Werner Maser, Hitler’s “Mein Kampf”: an Analysis, Londres, Faber and Faber, 1970. -Eberhard Jäckel (nasc. em 1929), Hitler Idéologue, Paris, Calmann–Lévy,1973 (título da ed. alemã: Hitlers Weltanschauung, 1969). -Antoine Vitkine, Mein Kampf, Histoire d’un Livre, 2013, obra referida na nota seguinte.
[5] Os Aliados, após o fim da segunda guerra mundial, deram ao governo da Baviera todos os direitos editoriais do M.K., durante 90 anos contados a partir da primeira edição, o que levaria o Instituto de História Contemporânea de Munique a preparar uma edição crítica comentada por historiadores e enquadrado no seu tempo, com vista ao momento em que a obra caísse no domínio público. Em França, a Fayard prometeu editar uma tradução francesa com um aparelho historiográfico, de modo a anular o efeito nocivo de reeditar semelhante panfleto de ódio racista. Em França, em 2015, o deputado europeísta francês Jean-Louis Mélanchon escreveu uma carta indignada à responsável da editora Fayard, perguntando: “Ele não nos enlouqueceu suficientemente, então porquê reeditar Hitler”, acrescentando que, “ havendo já uma Marine Le Pen, não era preciso voltar a publicar textos do Führer. ” Veja-se o artigo “«Mein Kampf», quatre-vingt-dix ans après…”, semanário L’Observateur, nº 2661, de 5-XI-2015, pp,10-11, ilustrado . Sobre este mesma questão e ainda as 3 edições francesas do M.K , antes da ocupação da França, veja-se o artigo de Pierre Assouline, “Pourquoi il faut publier Mein Kampf”,  Paris, Le Magazine Littéraire, nº 562, Dezembro de 2015, pp.3-5, com a reprodução das três edições gaulesas da obra nos anos 30, antes da França ser ocupada pela Alemanha nazi, p.4. O tema das versões do M.K. na França foi desenvolvido por Antoine Vitkine no seu Mein Kampf, Histoire d’un Livre, Paris, Champs, 2013, maxime  pp.134-148. Antes da ocupação da França, a Librairie Arthème Fayard, que publicav o jornal maurrasiano e anti-semita Candide, editora dirigida por Jean Fayard, assistido por Pierre Gaxotte, edita em 1938 (e depois, já na Ocupação, em 1942) uma obra que selecciona textos do M.K. e discursos de Hitler posteriores; citaremos esta reedição da obra, Ma Doctrine, Paris, Libairie Arthème Fayard 1942, na qual se incluem as passagens anti-francesas do M.K. de Hitler (pp.250-254, assim como discursos oficiais do Führer de anos posteriores são referidos explicitamente (v.g., o de Coblença, de 1935, sobre a devolução do Sarre à Alemanha, p.255 e ss). Citaremos a versão portuguesa desta obtra, Mein Kampf /A minha Luta, Lisboa, Edição Glaciar, 2016, 2 vols., trad. feita por Maria Lin de Souza Moniz, a partir da trad. inglesa, com introdução e notas do historiador D, Cameron Watt (1928-2014), de 1969, revista em 1991.
[6] Cf. William Shirer Le Troisième Reich, vol.I, p.109. E Karl Dietrich Bracher, The German Dictatorship. The origins, structure and effects of National Socialism, Nova Iorque e Washington, Praeger Publishers, 1979, p.129.
[7] K. D. Bracher, The German Dictatorship. The Origins and Effects of National–Socialism, introd. de Peter Gay (pp.VII-IX), N.Iorque e Washington, Praeger Pubslsihers, 1970, p.129. Karl Dietrich Bracher (Estugarda, 13-III-1922), estudou na Universidade de Tubinga (1948) e, depois da guerra, na de Harvard (1949-50). Servira na Wehrmacht durante a guerra, foi capturado pelos americanos na Tunísia (1943), ficando preso no Kansas, nos E.U.A.. Começando como historiador de Roma, orientou-se depois para a temática da ditadura alemã, da derrocada da República de Weimar e da ascensão de Hitler ao poder, escrevendo algumas das obras mais importantes da historiografia democrática germânica do após guerra: A Queda da República de Weimar (1955), A Tomada do Poder pelo Nacional-Socialismo (1960), de colaboração com Wolfang Sauer e Gerhard Schultz), A Ditadura alemã (1969) e A Idade das Ideologias (1982). Participou na “querela dos historiadores” de 1986-88, embora tomando numa posição lateral, criticando as teorias de Ernst Nolte sobre o Fascismo e elogiando os estudos de Joachim Fest sobre Hitler.
[8] Um segundo livro de Hitler, escrito depois de 1928, teria ficado por publicar, sendo editado em 1960 na Alemanha, com o título de Hitlers Zweites Buch (Segundo Livro de Hitler), havendo porém dúvidas de que se trate duma obra genuína.
[9] Essa primitiva vivenda foi engrandecida como reduto inexpugnável, rodeado de instalações de segurança onde 20.000 militares velavam pelo sossego e solidão do Führer. A metamorfose do modesto tugúrio campestre no sudoeste bávaro, perto da fronteira austríaca e a cerca de 80 kms de Munique, precisou de cinco anos de trabalho escravo para se transformar no mítico “ninho de águias” em forma de cogumelo, rematando numa torre a que só por elevador se podia ali aceder – era este o “ninho de águias” propriamente dito –, sob o qual havia treze pisos escavados na montanha, só havendo um acima dos andares subterrâneos, onde Hitler recebia as suas visitas mais íntimas, acompanhado de Eva Braun e do seu cão Blondi (que seria morto, quando o dono se suicidou no Bunker de Berlim, em  30-IV-1945)  e passava as longas noites de insónia, fazendo quase nenhum exercício, monologando como sempre e levando um regime alimentar severamente vegetariano, além de nunca beber vinho nem fumar . Uma estrada especial conduzia de Berchtesgaden a Berghof. Sobre a morte de Blondi no Bunker de Berlim, veja-se Joachim Fest, Inside Hitler’s Bunker. The last Days of the Third Reich, Londres, Pan Books, 2005, ilustr., pp.105-6 (o cão pastor alemão de Hitler foi morto com cianeto de potássio e os seus sete filhotes a tiro). Hitler gostava muio de cães, como lembra nos seus propos de table: ver Hitler Secret Conversations. 1941-1944, Nova Iorque, Signet Books, 1981, introd. de H.R.Trevor-Roper,  pp.235-6 (o seu cão Foxl na grande guerra) , 249 e 534 (Blondi era vegetariano).
[10] Lion Feuchtwanger (Munique, 1884­ – Los Angeles, EUA, 21-XII-1958), autor, nos ano 20 e 30, de famosos romances históricos, fugido das Alemanha nazi para Londres, em 1934 e, depois, para os Estados Unidos devido à sua ascendência judaica. Não deixa de ser curioso que uma das peças de teatro de Feuchtwanger, depois transformada, em 1925 em romance de grande sucesso, Jud Süss (O Judeu Süss), retratasse a vida de Joseph Süsskind-Openheimer, famoso financeiro judeu que fora director das finanças do duque de Würtembrg (1698-1738), acusado, após a morte do duque católico, de diversos delitos que o levariam a ser preso e exposto numa gaiola pelos protestantes, seria transformado numa figura odiosa pelo cineasta nazi Veit Harlan (1899-1965), no filme Jud Süss (1942), com a ajuda do ministro da propaganda Goebbels, como mostra de uma figura tipicamente judaica, cobarde, traiçoeiro e hipócrita, obra de cinema que teve enorme sucesso na Alemanha nazi e foi exibida em todos os países ocupados, como na França de Pétain, sendo obrigatório que fosse visto por todos os SS, membros da polícia e guardas dos campos de concentração, já que o filme proclamava que os judeus eram “ratos que causam a ruína do país, destruindo os bens e os alimentos dos homens” (sobre V.Harlan e Erich Waschnek, veja-se  Adelin Guiot e Patrick Restellini, L’Art nazi. 1933-1945, pref de L. Poliakov, Bruxelas, Editions Complexe,1983, pp. 156 e 160 (cartaz do filme de  E.W., Die Rothschilds) e 163 (foto do cartaz do J.Süss  à entrada do cinema Pathé Palace, em Paris). Sobre o significado especial da “Noite de Cristal”, veja-se o que diz  George Mossse na sua Intervista sul Nazismo (entrev. dada a Michael Ledeen), Roma, Arnoldo Mondadori Editore, 1993, pp.78-81), na qual G.M. diz que este episódio violento de 1938 foi um  “sinal dado por Hitler” no sentido de como tencionava  resolver a questão judaica, dando aos judeus, já destituídos de cidadania pelas leis anti-semitas de 1935, “uma punhalada no coração”(p.82).
[11] O. Strasser, Hitler et Moi, pp.68-69. Otto Strasser (Windsheim, Francónia, 10-IX-1897 – Munique, 27-IV-1974), irmão de Gregor Stasser (que seria assassinado por ordem de Goering, durante a Noite das Facas Longas, em Berlim, 1934), representante da ala esquerda do nacional-socialismo, seria expulso do NSDAP em 1930, fundando então com o ex-SA Walter Stennes uma dissidência, A União dos Socialistas Nacionais Socialistas Revolucionários, mais conhecida como a “Frente Negra”, exilando-se depois em Praga e, por fim, no Canadá, donde regressou ao seu país em 1955. Quanto a W.Stennes, exilou-se para a China, sendo comandante da guarda pessoal do general Tchang-Kkai-Check.
[12] Winston Churchill (1874-1965), The Second World Ware. Abridged edition with an epilogue on the years 1945 to 1957, Londres, Pimlico, 2002, pp.26-27  (este capítulo intitula-se “Adolf Hitler”, pp.24-32).