sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

A cidade pós-socialista.

 
 



 
Torres Gémeas, Almaty, Cazaquistão.
Projecto de Norman Foster
 
 
Há livros assim. Terríveis de tão bons. The Post-Socialist City. Continuity and change in urban space and imagery, organizado por Alfrun Kliems e Marina Dmitrieva. Uma obra colectiva, com vários artigos, em que cada um é melhor do que o outro. Leia-se de frente para trás ou de trás para a frente, cada texto é sempre mais interessante do que o anterior. Sem percorrer o índice de fio a pavio, e apenas num brevíssimo voo de pássaro, temos neste estabelecimento livreiro artigos de primeira qualidade sobre: monumentos e edifícios políticos da RDA após a reunificação da Alemanha; lugares de Praga depois da Revolução de Veludo; o majestoso Palácio da Cultura e da Ciência de Varsóvia; a famosa Praça da Independência em Kiev; a «cidade socialista» por excelência da Hungria, Dunaújváros (antiga Sztálinváros), projectada por Tibor Wiener;  um subúrbio de Bucareste e o novo urbanismo da Arménia.
         O livro é sobre o mais político dos organismos concebidos pelo homens – o espaço urbano – e aborda as transformações sofridas por várias cidades após a queda do comunismo. Mas, em boa verdade, The Post-Socialist City trata da Europa (como, aliás, se anuncia na nota introdutória, na linha dos trabalhos grande Karl Schlögel). Por muito estranho que pareça, compreendemos melhor o que é a Europa, e sobretudo o que poderá vir a ser, numa obra que dedica um capítulo inteiro à nova arquitectura ultramoderna do Cazaquistão. A «Europa», na verdade, pode ser várias coisas: uma entidade geográfica de contornos difusos; uma identidade histórica e cultural; uma comunidade de interesses. A Europa geográfica pode estender-se dos Açores aos Urais, mas a Europa dos interesses está onde a Alemanha quiser. Facto curioso: a publicação deste livro foi patrocinada por duas instituições alemãs, um centro da Universidade de Leipzig e pelo Ministério das Obras Públicas da República Federal…  
A União Europeia – e é essa uma das suas tragédias – procura ser em simultâneo todas as Europas que atrás de definiram, agrupando-as numa idée fixe. Repetimo-la: uma comunidade de interesses situada num espaço geográfico onde se forjou, através dos séculos, uma identidade cultural precisa mas difusa. Acontece que nem sempre estas três dimensões se articulam e ajustam. Nem sempre os interesses coincidem com a geografia. Raramente os interesses – sobretudo económicos – estão em consonância com os melhores valores da identidade cultural europeia (daí a proliferação de negócios com parceiros que não primam pelo seu apego à liberdade ou à democracia, ao respeito pelos direitos humanos e à tolerância).
 Os interesses da Alemanha, após a reunificação, deixaram de estar – ou deixaram de estar apenas – no espaço geográfico da Europa. Após a queda do Muro, a Alemanha passou a olhar para onde sempre quis, o ponto cardeal que sempre foi a sua vocação e destino: o Leste. Para os países da Europa do Sul, a reunificação foi uma tragédia – do ponto de vista dos interesses, não no dos valores ou princípios.  
 
 
 
 


Astana, Cazaquistão.
Projecto de Norman Foster

Um país, dois sistemas


Palácio da Paz e da Reconciliação, Astana, Cazaquistão.
Projecto de Norman Foster


 
 
 
 
Daí que, num certo sentido, o Cazaquistão seja muito mais «Europa» do que Portugal. Os grandes gabinetes de arquitectura, que têm o faro apuradíssimo para estas coisas, perceberam-no mais cedo do que quase todos nós, incluindo os académicos da geoestratégia ou os profissionais da diplomacia. Não é por acaso que Sir Norman Foster – ou, melhor dizendo, a firma Foster and Partners – projecta edifícios arrojadíssimos para o centro de Astana ou de Almaty. Não é por acaso que Rem Koolhaas, além da Casa da Música, no Porto, elaborou um projecto visionário – e, por certo, bastante dispendioso – para uma «Cidade da Ciência», nas imediações de Almaty. Ali corre o petróleo a jorros, abundam o gás natural e os metais preciosos. O Cazaquistão é um dos maiores exportadores de matérias-primas do mundo. Tem cerca de 15 milhões, um quarto da do Reino Unido, para um território de 2,7 milhões de quilómetros quadrados, onze vezes maior do que as Ilhas Britânicas. Desde 2000 que o Cazaquistão regista colossais taxas de crescimento de 9% ao ano. É considerado pela Transparency International um dos países mais corruptos do mundo (numa lista de 145 países, conquistou um desonroso 122º lugar). Mas nada disso impediu que fosse escolhido em 2010 para assumir a presidência da OCDE. Podemos ler muita coisa sobre o Cazaquistão, mas o artigo deste livro sobre a vertiginosa ascensão da arquitectura de vanguarda em cidades como Astana, Almaty e Aktau diz-nos mais do que vários tratados de geopolítica. Edifícios de vanguarda num país que só formalmente é uma democracia, onde o presidente Nazarbaev concentra em si quase todos os poderes. Desde 2007, o parlamento só tem deputados do seu partido, o Nur Otan («Luz da Pátria»). Não admira que os parlamentares tenham aprovado legislação que exime o presidente Nazarbaev da regra constitucional que impõe a renovação do mandato do chefe do Estado. Durante vários anos, a televisão estatal foi dirigida pela filha mais velha do presidente, Dariga Nazarbaev, que tem a sua clique de fiéis à frente das principais companhias e empresas. Nazarbaev intervém e tem a palavra final nos grandes negócios do país. Certamente que muitas das empresas que aí operam tiveram que falar com ele, ou alguém muito próximo dele, para se instalarem nas terras do Cazaquistão. A companhia Tengizchevroil, por exemplo, é uma joint venture entre a Chevron, a ExxonMobil, a Lukarco e a empresa casaque KazMunayGaz. A italiana Agip está noutra parceria, a extrair gás na região de Uralsk. Fábricas de automóveis? Nissan. Quem faz o cimento e os materiais das unidades de extracção do petróleo? ThyssenKrupp, da Alemanha. Quem faz as comboios de transporte ferroviário? General Electric, dos EUA. Tudo isto se processa num país onde a população rural vive mal, muito, e continua a viver mal, muito. A esperança de vida situa-se nos 62 anos para os homens e 73 para as mulheres, sendo cada vez mais intenso o êxodo para as cidades. Estas, sobretudo as maiores, são adornadas por edifícios desconcertantes de tão risíveis, num estilo falsamente majestoso, mas que no fundo é uma metáfora do Cazaquistão contemporâneo, uma ditadura falsamente majestosa.    
         Outro caso curioso, e revelador da cupidez humana, é o do «turbo-urbanismo» em Pristina, na ex-Jugoslávia. Por muito esotérico que o termo pareça ser, ele pretende ilustrar uma realidade que vale a pena ser conhecida: após a fragmentação da Jugoslávia, interesses vários obrigaram a construir rapidamente e em força. A presença inesperada de refugiados, o afluxo de repatriados e a chegada de inúmeros funcionários de organizações internacionais fizeram com que se tivesse de edificar a uma velocidade turbo, quase sempre sem olhar a regras elementares de urbanismo e, claro está, à estética dos edifícios. Predominou a construção em vidro espelhado azul, pretendendo-se dar um ar «international» a casas construídas da noite para o dia, no meio de ruas atravessadas por fios e cabos de todas as espécies, postes de iluminação periclitantes, trânsito caótico. O artigo publicado neste The Post-Socialist é excepcional porque retrata exemplarmente o impacto no espaço público de uma necessidade social imperiosa, à mistura com a especulação imobiliária e a corrupção pública – mas também privada. Tudo a acontecer num território com uma taxa de desemprego de 40% e diversas máfias a actuar, que de súbito se vê confrontado com a chegada de hordas de gente e capitais internacionais. O saldo final é kitsch a valer, dir-se-ia numa paráfrase de Dâmaso Salcede. Se as construções do Cazaquistão são fashion e ofuscantes, aqui predomina a mixordice e edificação atamancada. Quando Rexhep Lupi, o director de planeamento urbano de Pristina, tomou as primeiras e muito tímidas medidas para pôr termo à balbúrdia do turbo-urbanismo, o que aconteceu? Foi morto a tiro.   
 

 

 

Turbo-arquitectura, turbo-urbanismo
 
 
 
         Local também a reter: Floreasca, arredores de Bucareste. Construído para albergar a elite da era Ceucescu (aí existia, por ex., uma escola experimental para ensino intensivo do inglês), encontra-se hoje a ser alvo de um processo de «gentrificação» e, mais ainda, de «embelização» (beautification), com arranjos florais que tentam esconder os arranhões do cimento em derrocada e coisas do género, todas lindas, muito lindas. O número de lojas diminuiu, do mesmo passo que se registaram infindos casos de apropriação do espaço público e cada qual tentou demarcar o seu território através de gradeamentos, muros, etc., interrompendo vias de passagem e até destruindo espaços verdes de fruição colectiva. A beautification romena não anda muito longe daquilo que se faz em muitas cidades ou zonas de Portugal. Coloca-se uma «via pedonal», uma alameda de palmeiras e meia-dúzia de floreiras e pronto, já está – temos um «renovação urbana».
 

Floreasca, Bucareste, Roménia.
 
 
         Leitura recomendável, sem dúvida, a deste livro The Post-Socialist City, que nos diz muito sobre o mundo em que vivemos, que é um lugar estranho. Dele extraiamos, e com razão, uma crítica à acção das grandes multinacionais e à venalidade de alguns nomes grandes da arquitectura contemporânea. Muito superior a outro livro que, na sua cegueira «militante», é acéfalo e superficial, Evil Paradises. Dreamworlds of Neoliberalism, editado por Mike Davis e Daniel Monk (o capítulo sobre o Brasil como «o país mais injusto do mundo» é de uma banalidade de bradar aos céus; do livro só se aproveita um belíssimo ensaio-reportagem sobre a voracidade latifundiária de Ted Turner, ex-patrão da CNN). Ainda que um pouco datado (é de 2010, creio), The Post-Socialist City traz-nos textos informados, estudos de caso que cobrem um amplo espaço geográfico. A Europa já não mora aqui. Agora, vive algures entre Berlim e o Cazaquistão. É tempo de percebermos isso.
 
António Araújo
 
 




 
 
 

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Multidão Hopperática, a ausente.

  
 












Legendas
 
1. Edward Hopper, A Woman in the Sun, 1961, e janela, Whitney Museum, Setembro de 2014.
2. Tenth Avenue, Nova York, Setembro de 2014.
3. Fourth Avenue, Nova York, Setembro de 2014.
4. Edward Hopper, Early Sunday Morning, 1930, Whitney Museum. (*)
5. West 15th Street, Nova York, Setembro de 2014.
6. Exposição Edward Hopper and Photography, Whitney Museum, Setembro de 2014.
7. Rua de Brooklyn, Setembro de 2014.
8. Exposição Edward Hopper and Photography, Whitney Museum, Setembro de 2014.
9. Park Avenue, Setembro de 2014.
10.            Edward Hopper, Nighthawks, 1942, The Art Institute of Chicago.     (**)
11.           Estação de metropolitano em Brooklyn, domingo, Setembro de 2014.
 
(*) Imagem captada no site do Whitney Museum.
(**) Esta obra não faz parte da Exposição Edward Hopper and Photography.
 
A exposição Edward Hopper and Photography (Whitney Museum of American Art, Nova York, 17.07-19.10.2014) junta pinturas de Hopper da colecção permanente do museu com obras de seis fotógrafos contemporâneos: Gregory Crewdson, Philip-Lorca diCorcia, William Eggleston, Steve Fitch, Todd Hido e Stephen Shore.
 
Eduardo Cintra Torres


Capa em Córdova.

 
 
 




Por aqui, estuda-se «Capa em Córdova» - e a tese defendida por Fernando Penco Valenzuela no livro La foto de Capa. Muito brevemente, daremos notícias. Por agora, a notícia das jornadas sobre Robert Capa em Espejo, na região de Córdova.
 



 






 




Acima das posses.

 
 
 
 
Foi recentemente publicada em Portugal pela Dom Quixote a obra “Impérios em Guerra, 1911-1913”, organizada por Robert Gerwarth, que reclama uma perspectiva inteiramente nova sobre a Primeira Guerra Mundial, segundo a qual o conflito deve ser entendido como uma guerra de sobrevivência e de expansão imperiais, dominada por um processo de realinhamento de padrões de poder e de legitimidade globais.
Se é certo que esse é um modo de entender o conflito que ilumina alguns acontecimentos e decisões, não é menos certo que a Grande Guerra foi muito mais do que isso. Por outro lado, convinha que se fosse congruente. Por exemplo, face à afirmação de um vinco imperial tão marcado, não faz sentido que o volume português apresente na capa uma fotografia do que parece ser o avanço de uma companhia inglesa por entre as ruínas de uma cidade da Flandres ou do norte da França. A edição inglesa exibe alguns poilus franceses e, em primeiro plano, um tirailleur senegalês, o soldado colonial por excelência desde Napoleão III. Não há dúvida de que, essa sim, é uma capa com sentido.
 
 
A própria organização do volume levanta algumas perplexidades. Junta impérios coloniais, isto é, que dispõem de territórios separados geograficamente da metrópole e com estatutos político-administrativos que consagram a sua dependência, e impérios contíguos como a Áustria-Hungria e a China, como se fosse tudo a mesma coisa. Viena apenas almejava pequenos avanços nos Balcãs e desconhecem-se ambições de expansão territorial da China de então, mais preocupada com a recuperação das áreas que lhe tinham sido amputadas numa fase de tremenda fraqueza do Império do Meio, sendo, aliás, questionável apelidar a China de Império. Quando entrou finalmente em guerra, em Agosto de 1917, o objectivo fundamental da China era apenas recuperar a península de Shandong. Não parece que tal possa ser considerado um objectivo imperialista.
O facto é que a grande competição imperial ocorreu no final do século XIX, e opôs o Reino Unido à França e à Rússia. No primeiro caso, dois impérios coloniais competiam sobretudo em África e no Sudoeste Asiático. No segundo, um império contíguo como a Rússia, que pudera expandir-se no norte da Ásia (e vendera o território não contíguo do Alasca), continuava pressionada pelo seu sempiterno complexo de cerco (que o diga Putin), pelo que procurava descer para a Ásia Central, ameaçando a Índia. É bom recordar que, no século XIX a Inglaterra venceu a França e a Rússia, mas nunca esteve em guerra com a Alemanha. A Rússia era a autocracia mais absoluta, a servidão mais abjecta, um parceiro impensável. A França era a ambição revolucionária e napoleónica, colocando a sua ambição sempre acima das suas posses.
 
 

 
 
Um diplomata inglês, Sir Robert Vansittart, resumiu assim o modo como para além do canal se contemplava o vizinho:
Victorian England was vaguely convinced that nineteenth-century France had too good a time; that Frenchmen laughed too much and cooked too well … More serious still, Victorian England suspected that the French put more into, and got more out of, sex than the English. Victorian England had not the vaguest idea of how it was done, but was sure that the advantage was not fair, and quite sure that it was not nice!”
Fora de brincadeiras, no final do século XIX a rivalidade entre Inglaterra, França e Rússia era muito séria. Mas o medo de uma nova potência continental mudou tudo. Nada melhor do que um medo comum para unir. Em 1904, começou a formar-se a Entente Cordiale, não para criar uma aliança defensiva contra terceiros. Tratou-se apenas de firmar um entendimento sobre a partilha do mundo. Ou seja, deixar resolvida a questão imperial e passar a tratar de assuntos sérios: como conter a Alemanha. Por isso, parece deslocado dizer que a Primeira Guerra é acima de tudo um conflito imperial: os verdadeiros competidores globais já tinham regulado as suas ambições para poderem enfrentar juntos, como aliados, a nova potência que os ameaçava na Europa.
Desde 1871, unindo-se, a Alemanha conseguira ultrapassar a sentença que Voltaire em tempos lhe impusera: “A Alemanha está condenada à pobreza eterna”. A riqueza alemã já assustava os seus vizinhos, em especial a França e a Rússia. Mas o desvario de Guilherme II impediu que a Alemanha se contentasse em dominar a Europa como potência industrial, comercial e financeira. O Kaiser ambicionou o palco global, criando um instrumento igual ao da Inglaterra: uma marinha de guerra.
 
 
 
No entanto, o que ameaçava a Inglaterra, e a levou a entrar em guerra, não era propriamente a ambição imperial alemã. Comparado com o britânico, o império alemão era uma gota de água no oceano. E, como o mundo já estava divido, não havia por onde ele pudesse crescer sem abrir um conflito. Ora, quem na Alemanha estaria disposto a entrar em guerra por distantes colónias e ganhos incertos?
Muito mais importante, como aliás se viu durante a guerra, do que a marinha era o formidável exército alemão. E este era uma força de combate do terreno europeu. Para os ingleses, para os franceses, para os russos, a Alemanha pura e simplesmente não podia ganhar a guerra na Europa, porque dominaria todo o continente. Imaginam o que seria o Kaiser ter poder para impor a toda a Europa as suas diatribes que, como contámos aqui no Malomil a propósito do caso Daily Telegraph, faziam corar de vergonha os membros do seu governo e do parlamento alemão?
Dito isto, não se deve desvalorizar a dimensão global do conflito e a deriva imperialista que a justificou. Mas sobretudo porque ela é o resultado de um nacionalismo agressivo oitocentista que operou uma transformação do imperialismo que, de prática informal de carácter essencial comercial, se tornou doutrina de conquista e de expansão territorial. Ora, é interessante notar que os custos das colónias foram sempre superiores aos benefícios económicos que delas foram retirados. Já houve quem alvitrasse, com sagaz ironia, que a Alemanha poderia ter alcançado a melhor das vitórias, aquela que se obtém sem combater, se tivesse esperado que a Inglaterra se esgotasse por si própria, por meio de gastos crescentes com as colónias. Afinal, parafraseando o que dizia Norbert Elias da aristocracia, a decadência novecentista dos impérios deveu-se ao facto de todos gastarem em função do estatuto e não das necessidades. Por outras palavras, viviam acima das suas posses. Mas isso é outra estória; nossa, de sempre, de outros, por vezes.
Sendo assim, mesmo que concluíssemos que a guerra foi, sobretudo, motivada por ambições imperiais, o mínimo que se pode dizer é que não valia a pena. Na época, o sucesso económico e financeiro resultou sempre do comércio com mercados avançados e dos investimentos em mercados emergentes, como a Argentina ou o Brasil. Por outras palavras, o imperialismo não foi uma exigência do sistema capitalista, ou a consequência de necessidades objectivas dos empresários e investidores capitalistas. O imperialismo manifestou-se, antes do mais, como um apelo passional que tentou mobilizar as nações contrariando a racionalidade económica. Basta notar que, em 1914, o Reino Unido era o maior importador dos produtos alemães e a Alemanha constituía o segundo melhor mercado para as exportações britânicas. Tantos esperaram então que o doce comércio, pacificando os homens para servir os seus interesses, tornaria impossíveis as guerras. Houve quem o quisesse provar cientificamente. Kant chegou a argumentar que o Estado se veria forçado, malgré lui, a fomentar a nobre paz. 
Schumpeter, em Imperialism and Social Classes, bem o disse: o capitalismo, como exercício de racionalidade, não podia ser responsabilizado por tendências não objectivas para uma expansão forçada, sem limites utilitários definidos, isto é, inclinações irracionais, puramente instintivas, para a guerra e a conquista. O direito das grandes nações a ter um império mais não era do que o direito a suicidar-se financeiramente. Este imperialismo foi seguramente uma pulsão por vezes incontida, mas que estava destinada a não durar. Na verdade, a criação nas comunidades políticas de então de um espírito nacionalista, belicista e expansionista foi apenas um mecanismo para alcançar a unidade nacional, de modo a amortecer tensões políticas e sociais internas. Não se tratava de dominar o mundo mas de não perder o controlo do poder interno.
 
José Luís Moura Jacinto
 

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Florin Court, no PUFE.






 
aqui falei, mas não tanto como merece, do PUFE, da Joana Albernaz Delgado. Com o seu extremo bom gosto e enorme rigor de investigação, a Joana acaba de se abalançar ao Florin Court, em Londres, numa posta que vai desde Art Déco a Agatha Christie. Vejam a maravilha. Assim, dá gosto.