quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Será possível?

 
 
Henri Cartier-Bresson,
Paris, 1937

 
 
O mestre Henri Cartier-Bresson (HCB), como é sabido, dizia vezes sem conta que as fotografias que publicava eram exactamente iguais às que a sua câmara captara. Não admitia enquadramentos ou manipulações na altura da revelação. Nos Estados Unidos, perguntaram-lhe um dia como pretendia que as suas imagens fossem reveladas. Respondeu: «O único que quero é que uma fotografia seja tal como a vi.» Por diversas vezes, insiste nesse tópico nas entrevistas que concedeu ao longo dos anos e que agora foram publicadas em França em livro intitulado Voir est un tout. Entretiens et conversations (1951-1998), Paris, 2013. Existe tradução espanhola feita há uns meses e editada pela Gustavo Gili de Barcelona. Ambos os livros acompanham a retrospectiva de HCB que esteve patente no Centro Pompidou e, até ao passado dia 7 de Setembro, na Fundação Mapfre, em Madrid.
         Ao ver a exposição, fiquei intrigado com esta fotografia. Pareceu-me que, claramente, algo se passara com ela. Sobretudo, com a imagem da mulher, com o recorte do seu penteado. Perguntei a pessoas amigas, foram da mesma opinião. A fotografia consta do site da Magnum, aqui, tendo a seguinte legenda: «França, Paris, 26 de Março de 1937». Surge também no monumental catálogo da exposição de Paris/Madrid, da autoria de um dos maiores especialistas na obra de HCB, Clément Chéroux. Na página 179 desse catálogo, na edição espanhola, aparece com a seguinte legenda: «Funerais das vítimas do tiroteio de Clichy, Paris, França, 21 de Março de 1937.» A discrepância das datas não é muito relevante: na Magnum falam em 26 de Março, na exposição antológica falam em 21 de Março. O que impressiona, insisto, é a fotografia em si mesma. Surgiu nas páginas do Ce Soir, jornal da imprensa comunista francesa, dirigido por Louis Aragon. Já aparece desta forma. O que se terá passado? Um erro na revelação, que escapou ao mestre dos mestres? Ou, pior ainda, uma manipulação fotográfica? Será possível?

Iluminações.

 
 
 



Nova Iorque, Setembro de 2014
Fotografias de Eduardo Cintra Torres



terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Rum service.

 
 
Jonathan Coe
 
Alaa Al Aswany

Eric Hobsbawn

Hanif Kureishi


Umberto Eco

Salman Rushdie


 
Há escritores que vivem em hotéis, fazendo viagens ao redor dos seus quartos. Outros trabalham lá. Natália Correia escrevia muito no Hotel Britânia, à Rodrigues Sampaio. Diz-se que O Encoberto foi todo redigido num quarto que ainda hoje conserva a sua memória. O fotógrafo argentino Daniel Mordzinski decidiu retratar escritores e intelectuais em hotéis. Tendes o site do moço aqui e uma entrevista interessante aqui. A amostra é grande, mas dela seleccionámos apenas algumas peças. Rushdie na banheira, um portento. Obrigado por Isto.



Vikings urbanos.

 
 
 
 
 
Qualquer dia, o Museu Britânico ainda vem abaixo. Agora, levam por lá uma exposição sobre vikings, que dizem ser bela de bélica. O que as pessoas não sabem, mas deviam saber, é que além dos radioamadores e dos druidas que se reúnem aos sábados na serra de Sintra, ainda existem vikings vivos. Alguns deles têm largas centenas de anos, mas pelas imagens estão muitíssimo bem conservados. E, coitaditos, tentam adaptar-se às comodidades da vida moderna. Todos os anos, pelo mês de Junho, encontram-se em Höllviken, que é uma terra que parecendo situar-se no concelho de Penacova fica em boa verdade na Suécia. Houve em Höllviken uma batalha das valentes já vai para 900 anos, mas estes vikings não esquecem aquele pênalti que ficou por marcar ao minuto 73'. Eis algumas imagens dos manifestantes, bastante cordatos até à hora desta reportagem. Isto, sim, é uma tribo urbana com urbanidade.  
 
 









 
 

domingo, 28 de Setembro de 2014

Tiananmen, 1989.

 
 


Pequim, 5 de Junho de 1989
Fotografia de Stuart Franklin


 
         Henri Cartier-Bresson esteve na China, numa viagem arriscada, onde assistiu aos dias finais do Kuomintang e à vitória das tropas de Mao. Anos depois, em 1954, publicaria um livro sobre o seu périplo pelas terras da Grande Muralha, D’une Chine à l’autre, com prefácio de Sartre.
         Apoiante desde a primeira hora da causa tibetana, assistirá horrorizado aos acontecimentos de Tiananmen, sobre os quais disse:
 
«Estava em Nanquim em 1949, quando as tropas do exército de libertação aí entraram, envoltas numa aura que nos fazia pensar nos primeiros cristãos. Chegaram aureoladas pelo prestígio da grande epopeia da Longa Marcha. Agora, assistimos à ignomínia do exército chinês actual, que procura salvar a esclerose do regime com o sangue dos estudantes. Em minha opinião, a primeira coisa que cada um de nós deverá fazer é exigir às nossas autoridades que cessem todas as relações comerciais com aquele governo. Tudo o resto serão palavras vãs; vamos ver se o nosso dinheiro vale mais do que o sangue daqueles que foram esmagados na ânsia de serem livres.»
 
         Viu-se…
O que também se viu, em filme e fotografia, foram as imagens inesquecíveis de um homem que, com dois sacos de plástico nas mãos e de camisa branca, enfrentou sozinho uma coluna de tanques. Depois desta cena de extraordinária coragem, muitos tentaram saber quem ele era. Ninguém foi capaz de descobrir a sua verdadeira identidade, dizendo uns que tinha sido morto logo a seguir ao minuto heróico, outros que havia sido detido, outros ainda que se escapara, vivendo incógnito numa qualquer aldeia da imensa China. Talvez hoje seja um próspero de negócios. Talvez viva perto de si, graças a um visa gold.
         No Malomil fala-se, vezes sem conta, de manipulações fotográficas. Por puro deleite, sem dúvida, mas também porque às vezes a questão é mais séria do que parece. Sobretudo quando mete política ao barulho, como foi o caso da célebre imagem do «Homem do Tanque» em Pequim. Em 2007, uma equipa de psicólogos italianos liderada por Dario Sacchi levou a cabo uma curiosa experiência com estudantes. Estamos a falar, insiste-se, numa das mais célebres imagens do século XX, indelevelmente inscrita na memória colectiva de todo o mundo. Dividiram-se os estudantes em dois grupos, e a cada um dos grupos foi mostrada a fotografia de Pequim. Num caso, a imagem real, que mostrava o homem isolado, numa avenida onde não se via vivalma. Noutra, manipulada, a avenida surge pejada de manifestantes. Já agora, também mostraram uma fotografia de 2003, de uma manifestação pacífica em Roma contra a guerra do Iraque (na imagem manipulada aditaram figuras de pessoas violentas e agressivas – no final do estudo, os inquiridos mostraram-se menos dispostos a participar em marchas pacíficas e em manifestações do que antes de verem a imagem manipulada). Quanto à fotografia de Pequim, o mais espantoso é que os dois grupos garantiram a veracidade da imagem. Quer da autêntica, quer da manipulada. Mais ainda, os inquiridos, ao terem sido alertados para que uma das imagens era falsa, disseram que havia ainda mais gente ao lado do «Homem do Tanque». Ao que parece, o estudo confirma – ou, como agora se diz, «está em linha» – investigações anteriores, que concluíram que as pessoas frequentemente acreditam na veracidade dos primeiros relatos que recebem sobre um dado acontecimento, e mantém essa convicção mesmo quando confrontadas com a sua inverossimilhança. Estou a simplificar muito, mas quem quiser pode ver um resumo aqui e o respectivo abstract aqui.
 
 
 

A experiência de Dario Sacchi et all.
 
         O que muitas pessoas não sabem, mas até é dito aqui na Wikipedia (foi lá que o soube, aliás), é que existem não uma, não duas mas cinco fotografias distintas do «Homem do Tanque». Da autoria de Jeff Widener, para a Associated Press, de Charlie Cole, para a Newsweek, de Stuart Franklin, para a Magnum, de Arthur Tsang, para a Reuters. Até hoje, ninguém apresentou motivos convincentes para o facto de a imagem de Jeff Widener ter sido aquela que mais se celebrizou. No entanto, seria a de fotografia de Stuart Franklin a conquistar o Prémio da World Press Photo em 1989. Merecidamente. A imagem de Franklin, com o rebelde em posição frontal, de coluna direita e cabeça levantada, solitariamente imóvel frente a um tanque capaz de o esmagar num segundo, é a mais poderosa de todas.
 
 
As quatro imagens conhecidas até 2009
 
 

Pequim, 5 de Junho de 1989
Fotografia de Jeff Widener


Jeff Widener
 
Foram várias as peripécias que levaram à captação das imagens e à sua transmissão para o Ocidente. As autoridades chinesas da época, do mesmo passo que tentavam dizer que a fotografia era um feliz exemplo da «humanidade» dos seus militares, ameaçaram os jornalistas com a aplicação da lei marcial e de longas penas de prisão se acaso não devolvessem os rolos que traziam. Os quatro fotógrafos falaram daquele instante decisivo em várias ocasiões (por exemplo, aqui) Aliás, a  história destas fotografias – e do herói que retratam – foi objecto de várias reportagens e filmes. De um extraordinário documentário da PBS, que pode ser visto na íntegra aqui ou nesta versão resumida:
 
 
 

 
 
 
 
Em 2009, vinte anos depois do massacre de Tiananmen, Terril Jones, da Associated Press, publicou uma nova imagem, de um ângulo completamente diferente de todas as outras. A fotografia não tem o poder evocativo das dos seus colegas, mas o ponto de vista, próximo do chão, torna-a singularíssima. Mal se dá pelo rebelde, uma minúscula figura no lado esquerdo da imagem, aguardando como um forcado lusitano, a investida dos carros de combate. O que pensaria ele, naquele preciso instante? Não era certo que os tanques iriam estugar o passo. Pura e simplesmente, poderia ter-lhe passado por cima, esmagando-o como a um insecto insolente. É também espantosa a história de Terril Jones. Mostrara a imagem a alguns amigos e, um dia, ao ver os depoimentos dos fotógrafos de Tiananmen no blogue de fotografia de New York Times, lembrou-se de enviar para lá um e-mail com a sua imagem (aqui e aqui). Assim, sem mais. Foi uma bomba na redacção. Uma bomba ao retardador: durante vinte anos, permaneceu incógnita… Por isso, se porventura tiver em casa alguma fotografia que tenha tirado em Pequim, em 5 de Junho de 1989, não deixe de contactar o Malomil. Antecipadamente gratos.     
 

Fotografia de Terril Jones
(o «Homem do Tanque», minúsculo, no lado esquerdo da imagem)
 

 
         O homem que enfrentou os tanques na Avenida Chang’na, naquele 5 de Junho de 1989 ganhou vários nomes «Homem do Tanque» ou «Rebelde Desconhecido». A Time escolhê-lo-ia como uma das personalidades mais marcantes do século XX. A sua identidade será sempre um mistério, o que torna a sua coragem ainda mais admirável. Se acaso tivesse sobrevivido e conseguido fugir para o Ocidente, hoje seria mundialmente famoso, teria a vida feita a apresentar palestras e a dar autógrafos. Repórteres presentes no local tanto dizem que foi imediatamente detido pelas autoridades como asseguram que foi dali retirado por outros companheiros de protesto, Confrontado em 1990 sobre este assunto, o secretário-geral do Partido, Jiang Zemin, disse à jornalista Barbara Walters, através de um intérprete, não ter elementos que lhe permitissem confirmar, ou desmentir, se fora detido. Depois, num aparte em inglês, tartamudeou: «I think… never killed».

         À semelhança do que ocorreu com os estudantes-cobaias da experiência de psicologia que atrás citámos, os jovens chineses dos nossos dias não se recordam da imagem do rebelde com causa. Nem sequer a conhecem. A China não autoriza a sua divulgação. Alunos da Universidade de Pequim, confrontados com a imagem, disseram tratar-se de uma «mistificação». Mas, pior do que eles, são os que conhecem as fotografias do Homem do Tanque, que assistiram à tragédia de Tiananmen, e continuam a agir como se nada tivesse acontecido. Fazem negócios com a China, fecham os olhos ao dumping social e ambiental que destrói quaisquer hipóteses de sociedades decentes e civilizadas, com direitos sociais e democracia, competirem com os chineses. Pior ainda, ignoram a censura e pactuam com ela, como aconteceu com a Google. Aqueles que, outrora, embargavam o comércio com regimes ditatoriais, são agora dos primeiros a celebrar contratos de milhões com um país que não respeita sequer os seus cidadãos (haverá de respeitar os cidadãos doutros países?). Tudo em nome do ganho fácil, imediato, sem pensar nas consequências a médio prazo.   

         Um estudante da Universidade de Pequim, ao ver as imagens, disse que não eram reais, eram «artísticas». São obras de arte, sem dúvida. Mas autênticas. A partir delas, muitos artistas fizeram recriações e pastiches, alguns dos quais, entre milhares, mostramos ali em baixo.

         Agora, é tempo de ir embora.  

Antes disso, um abraço a uma pessoa de fibra e coragem, que já escreveu sobre a China e Tiananmen.

Para a Raquel Vaz-Pinto, com a amizade do


António Araújo  
   
 



Bansky







Vik Muniz





 
 
(cortesia de Eduardo Cintra Torres)
 

 

sábado, 27 de Setembro de 2014

Jardins Proibidos. O Episódio 14.

 
 
 

 
 
 
Jardins Proibidos não é apenas a novela da TVI em que o actor Francisco Côrte-Real encarna a personagem Zeca dos Hambúrgeres. Não, Jardins Proibidos é muito mais do que isso. Ao minuto 7’, num lacrimoso diálogo de papelaria entre Célia e Andreia, esta confidencia que a sua irmã aderiu ao Estado Islâmico e, pior ainda, passou a usar burka e mudou o nome de Sandra para Leila. Ao minuto 9:55’, uma advertência sobre os malefícios do Facebook. Ao minuto 10’, e por aí fora, publicidade descarada ao Correio da Manhã. O melhor deste 14º episódio de Jardins Proibidos? Acontece ao minuto 22:20’. Uma fundamentada explicação histórica sobre o fenómeno do nazismo, quando Adolf Hitler contou com o apoio cego de «centenas e centenas de alemães». Os pais de Sandra a.k.a. Leila planeiam ir à Síria resgatar a filha das garras do Estado Islâmico. Parece-nos arriscado, mas enfim, cada um sabe de si. Ah, e para puxar à lágrima aparece também uma miúda hospitalizada que, muito queridíssima, luta entre a vida e a morte. Não perca os próximos episódios de Jardins Proibidos, portanto. Comparado com isto, os Monty Python são uns amadores do riso.
 
 
 

sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

Anthropologie.

 
 
Nova Iorque, Setembro de 2014 (*)
 
 
 
 






















Fotografias de Eduardo Cintra Torres


 
(*) Com uma incursão em Philadelphia, em duas fotos de graffiti murais.
 
Eduardo Cintra Torres