terça-feira, 29 de Julho de 2014

Da Libertação à Liberdade.


 
 
 

 

Chovia que Deus a dava. Trovoada iminente, clarões ao fundo. Com tantos relâmpagos no horizonte, não seria a melhor altura para subir a uma colina de Budapeste. Mas talvez não houvesse outra ocasião para regressar ali, à Estátua da Liberdade, que outrora foi da Libertação.

Ao chegar ao Hotel Géllert, cúmulo de decadência, é só virar à direita e começar a caminhada, que se faz bem nos dias bons. Acercamo-nos primeiro da Igreja da Rocha. No dia 13 de Maio de 1948, quando uma multidão de fiéis se reuniu ali em louvor à (nossa) Senhora de Fátima, numa cerimónia celebrada pelo Cardeal József Mindszenty, a polícia fez valer a nova ordem comunista, dispersando os crentes. Mais tarde, em Junho de 1960, ergueram um muro de dois metros a tapar a entrada do lugar de culto. O muro só foi demolido por volta de 1991-1992. Nesse mesmo ano de 1992, um artista húngaro, numa imitação de Christo, cobriu a Estátua da Libertação com um gigantesco lençol branco. Mas já lá vamos. Agora, há que subir até ao alto. Da Igreja da Rocha, que deixámos para trás, muito haveria a dizer, mas o essencial é isto: está transformada num emaranhado de grutas kitsch, para trogloditas de mau-gosto.
 
 
Fotografia de António Araújo
 
 
Até ao cimo da Colina Géllert, onde fica o Monumento e a Cidadela, ainda faltava um bom pedaço. Lá no alto, a estátua da mulher esguia, segurando uma palma com ambas as mãos. Pelo caminho, crocitavam corvos, muitos, abrigados do temporal que se avizinhava. Estando em Buda e ouvindo corvos, devia curvar-me perante a memória de Matias Corvino, até porque um outro Matias, esse grande amigo e de nome Gonçalo, muito tinha feito para que eu ali estivesse. Corvinus Mátyás ou Hunyadi Mátyás foi, todos o sabem, um grande rei da Hungria, dos maiores de todos. Nas armas dos Hunyadi, existe um corvo, um corvo com um anel de ouro no bico, símbolo que encontramos em vários locais de Buda e também na Polónia (ver aqui)

 
 
 
 


 
Fotografias de António Araújo
 


Aproximava-me da Estátua da Liberdade. Alguns guias turísticos, incluindo o da American Express, dizem que foi concebida para evocar a memória de István Horthy, o malogrado filho do almirante Miklós Horthy, «Sua Alteza Sereníssima, o Regente da Hungria». De acordo com a lenda, os soviéticos apossaram-se desta criação do escultor Zsigmond Kisfaludi Stróbl (Alsórjak, 1884 – Budapeste, 1975) (e aqui, aqui ou aqui) transformando-a compulsivamente numa homenagem às tropas libertadoras vindas de Leste.   

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A escultura, de quase 14 metros de altura (altitude?), assenta num obelisco com 22 metros, o que, tudo somado, significa que está muito lá no alto. Foi inaugurada em Abril de 1947, para celebrar o segundo aniversário da expulsão dos nazis e, portanto, da libertação da Hungria pelo Exército Vermelho. Daí ter sido chamada «Estátua da Libertação» (e não, como a sua colega de Nova Iorque, «Estátua da Liberdade», até porque, como sabemos, para os soviéticos libertação era uma coisa e liberdade era uma outra coisa).
 
 
A Colina Géllert, antes da Estátua da Libertação
 
A Estátua, já presente ao fundo
 
Em primeiro plano, a Cidadela
 
 
 
 

 

Imagens pré-1989.
Os Pioneiros, desenhando a Estátua da Libertação
 
 
 
Agora, vamos ao mito urbano. Como refere Bob Dent em Every Statue Tells a History, um livro de 2009 algo ligeiro sobre a riquíssima estatutária de Budapeste, com gritantes lacunas mas ainda assim bastante informativo, mesmo hoje encontra-se enraizada a ideia de que o Monumento à Libertação, da autoria de Stróbl, se destinava a honrar a memória de István Horthy, o filho mais velho do almirante Miklós. Também no guia do Parque das Estátuas/Memento Park, da autoria de Ákos Réthly, se refere a  lenda urbana que propagava a falsa ideia de que o monumento se destina a homenagear a memória do aviador István Horthy. Dizia-se, até, que, em lugar de uma palma, a rapariga deveria ter uma hélice na mão…



Horthy e Hitler, 1938

 
Ao almirante deram vários títulos, como «Protector da Hungria». Comandou o país nos difíceis tempos de entreguerras, Na época, aproximou-se amistosa e perigosamente de Hitler, deixando na História da Hungria uma marca assaz incómoda. Se lermos uma brevíssima introdução ao historial daquele país, como Hungary. A Brief History, de Itván Lázár (da editora Corvina, claro está), apercebemo-nos do contorcionismo do autor para tentar justificar o injustificável. Os tempos mudaram e hoje a figura do almirante Horthy goza de bastante apreço, facto que, se juntado a outros que vamos conhecendo, não deixa de ser preocupante para todos nós. No Museu Nacional da Hungria  encontramos um autêntico santuário dedicado à memória do Regente, com a sua farda e objectos pessoais, entre outros adereços políticos (a que seguem sumarentas salas sobre os tempos do comunismo).
Pois bem, quando o almirante começou a vacilar no apoio a Hitler, os nazis perceberam que era tempo de agir – rapidamente e em força. O seu filho querido, oficial da Força Aérea, teve um estranho acidente de aviação, seis meses depois de o parlamento o ter nomeado vice-regente da Hungria (ou seja, se algo acontecesse ao pai, István suceder-lhe-ia no cargo). O rapaz, bem-parecido, que em mais jovem trabalhara na fábrica da Ford, em Detroit, gozava de apreciável popularidade e era um opositor ao nazismo e à deportação dos judeus. Casou com uma condessa, Ilona Edelsheim-Gyulai, Ily de petit nom, que morreu no Reino Unido o ano passado de 2013, aos 95 anos de idade.
 
István Horthy
         
 

A condessa Ily Edelsheim
 
Ily, enfermeira na 2ª. Guerra
 
Uma senhora distinta de origem norueguesa, Edle Astrup Hubay Cebrian, casada com um aristocrata húngaro, privou de perto com Ily Edelsheim, a mulher de István. Edle Cebrian escreveu memórias, publicadas entre nós em 2003 pela Oficina do Livro, com o título De Budapeste ao Estoril. Uma vontade indomável. A páginas tantas, recorda a coragem de Ily durante a guerra, trabalhando como enfermeira da Cruz Vermelha e criando um filho de dois anos. Quando o marido lhe disse que iria tentar aproveitar um voo de reconhecimento da frente Leste para se juntar aos Aliados, Ily ter-lhe-á dito, com nobreza: «− Se achas que é isso que deves fazer pelo teu país, não hesites. Vai, e não penses em nós». Não sabemos se o patriótico diálogo foi exactamente esse, mas pelo menos foi assim que Edle Cebrian o ouviu da boca de Ily Edelsheim, quando ambas viviam refugiadas em Portugal, mais precisamente no Estoril. Seguindo o conselho da mulher, István descolou no seu monomotor às quatro da madrugada. O avião despenhou-se pouco depois, tendo o piloto morte instantânea. Quando um general alemão se deslocou a casa da viúva para lhe dar as condolências do Führer, a condessa recusou os pêsames e pô-lo na rua. Se não é verdadeiro, é bem achado.
O escultor Kisfaludi Stróbl trabalhou num memorial evocativo de István, muito provavelmente a pedido do pai deste, o almirante Miklós Horthy. O que não é verdade é a história segundo a qual, em 1945, os russos entraram no atelier de Stróbli, viram a estátua e quiseram-na para eles. Essa historieta, ao que parece, surgiu pela primeira vez num livro sobre a Hungria, da autoria de Pál Ignotus, publicado no Reino Unido em 1972. A partir daí, foi difundida amplamente, como todas as boas lendas. Ainda hoje podemos ver o Memorial de Horthy, de que existe um modelo no Museu Göcsej, em Zalaegerszeg, que possui uma ala dedicada à obra de Stróbl. Existem ténues semelhanças com a Estátua da Libertação, mas pouco mais do que isso.



Kisfaludi Stróbl,
Estudo para monumento a István Horthy, 1944
 
 
Morto István num acidente aéreo, restaram o almirante e o seu filho, Miklós Horthy de Hagybánya II, nascido em Pula, no ano de 1907, e falecido no Estoril em 28 de Março de 1993. Com Miklós Jr. passou-se uma história curiosíssima, mas esta verdadeira. Depois da morte do irmão, Miklós Jr. – que chegou a ser, durante uns tempos, embaixador da Hungria no Brasil – decidiu incrementar a sua hostilidade face aos nazis. Como também o seu pai dava mostras de querer descolar do letal amplexo de Hitler, os alemães urdiram a retaliatória e chantagista «Operação Panzerfaust», também conhecida por «Operação Mickey Mouse» («Mickey» era uma derivação humorística do nome Miklós, ou «Nicky»).
 
 
Otto Skorzeny
 
Miklós Jr.
 
 

Para o efeito, colocaram em campo o melhor homem que tinham para as operações de alto risco, o mítico austríaco Otto Skorzeny, que já havia cometido a proeza de libertar Mussolini, encarcerado num hotel dos Apeninos. Nas suas memórias, Skorzeny conta em detalhe a «Operação Mickey Mouse» (cf. Otto Skorzeny; Skorzeny’s Special Missions. The Memoirs of «The Most Dangerous Man in Europe», 1957, reed. 1997, pp. 131ss; cf. ainda, por ex., Charles Whiting, Skorzeny. «The Most Dangerous Man in Europe», 1998, pp. 47ss). Antes desta operação, o austríaco ainda foi enviado a França, com vista a montar a captura e resgate de Pétain (outra das acções engendradas visava matar Churchill, Roosevelt e Estaline quando estes se encontravam reunidos na Conferência de Teerão). Abandonado o plano de raptar Pétain, Skorzeny é enviado a Budapeste, com uma identidade falsa. Pouco depois de chegar às margens do Danúbio, o «Dr. Wolf», de Colónia (era essa a sua falsa identidade), sabe que Miklós Jr. havia iniciado conversações secretas com os partisans jugoslavos, comandados por Tito, com vista a obter a rendição da Hungria aos soviéticos. Tito actuava como intermediário de um negócio a que os nazis tinham de pôr cobro de imediato. Assim o fizeram. Entre diversas peripécias, Skorzeny rapta Miklós Jr. e um amigo deste. Para os conseguir tirar discretamente de onde estavam, foram enrolados numa carpete atada com uma corda de um reposteiro e levados para longe dali. Em pouco tempo, estavam metidos num avião a caminho de Munique. Miklós Horthy Jr. acabaria no campo de concentração de Dachau e, com o avanço dos Aliados, seria deslocado para o Tirol.
Perante a ameaça de que matariam o seu filho, o almirante Horthy rendeu-se aos alemães e abandonou o poder, sendo conduzido por Skorzeny a um castelo na Baviera, onde ficou detido em prisão domiciliária. A história da carpete, por mais rocambolesca que pareça, é autêntica. Foi até recriada, em figuras de cera, num dos locais mais fantásticos de Budapeste, o Hospital na Rocha. Era aí, nesse hospital subterrâneo, convertido em abrigo nuclear durante a Guerra Fria, que a condessa Ily Edelsheim e outras grandes senhoras da aristocracia húngara serviram como enfermeiras da Cruz Vermelha. Aliás, foi Ily Edelsheim, a viúva de István Horthy, que presidiu à inauguração do estabelecimento hospitalar cavernícola, onde tantas vidas foram salvas (cf. Gábor Tatai, The Short History of the Hospital in the Rock, 2012, pp. 10-11). Nesse mesmo local, muitos anos depois, seria colocada uma recriação em cera do rapto do seu cunhado, prova de que a vida, de facto, dá muita volta. Muda num segundo. Para quem duvide, mais uma nota: Otto Skorzeny e o pai Horthy acabariam por reencontrar-se. Onde? Nas celas do Palácio da Justiça de Nuremberga, estando ambos encarcerados por envolvimento com o III Reich. Reencontraram-se, falaram longamente e, segundo Skorzeny, ficaram amigos.
         Com o final da guerra, quer o almirante Horthy quer o seu filho exilar-se-iam no Estoril. O pai morreu em 1957, o filho em 1993, tendo deixado duas filhas, Zsófia (nascida em 1928) e Nicolette (nascida em 1929). Não sei se estão vivas. Sei que Skorzeny, o vilão da história, terminaria os seus dias não muito longe daqui: fixou-se em Espanha, onde morreu de cancro, em Madrid, no ano de 1975.



 
 
         Foi no Estoril que, como vimos, a norueguesa Edle Astrup Hubay Cebrian privaria de perto com Miklós Horthy e senhora, com a sua nora Ily Edelsheim, viúva do primogénito István, e com Miklós Jr., atapetado pelos nazis. O marido de Edle Cebrian estivera à frente da fábrica de porcelanas Herende, ainda hoje famosa. E, como nestas histórias aparece sempre um leão, aqui fica uma fraca imagem de um horroroso felídeo de porcelana, quase em tamanho natural, rosnando na montra da Herende na elegante Avª Andrássy:
 
 
Fotografia de António Araújo
 
    
     Devido a esta experiência laboral na Herende, e aos seus dotes estéticos, o marido de Edle recebeu dois convites: um, para dar aulas numa universidade norte-americana; outro para ser director artístico das porcelanas Vista Alegre. Aceitou este último, pelo que a família veio viver para Portugal. Segundo a viúva, que também já morreu, tentou modernizar os métodos de produção da fábrica de Ílhavo, mas «esbarrou sempre com alguma hostilidade por parte dos proprietários». Acabou por se demitir, mas permaneceu entre nós, dando aulas de desenho e pintura na Escola Americana e sendo treinador de futebol no colégio St. Julian’s. Quando se dá a revolução de 1956, o casal continuava a residir no Estoril. Apoiante dos revoltosos, o marido de Edle fez dezenas de chamadas telefónicas para Budapeste, tantas que chamou a atenção da PIDE. Seria convocado à António Maria Cardoso e, durante três dias, a família nada soube dele. Um amigo da família, Salvador Corrêa de Sá, intercedeu junto de Salazar. O húngaro foi devolvido ao lar nesse mesmo dia, sendo conduzido a casa num Mercedes negro, e de chauffeur. Morreria em Fevereiro de 1971. 
         Com tantas histórias pelo meio, nunca mais chegamos ao cimo da Colina Gellért e à Estátua da Libertação. A verdadeira história da estátua nada tem a ver com os Horthy. Aliás, nas suas memórias, expressivamente intituladas Pessoas e Estátuas, o escultor Kisfaludi Stróbl conta efectivamente o que se passou. Um dia, no final da guerra, o marechal Voroshilov, chefe da missão soviética no Comando Aliado de Budapeste, entrou no seu atelier. Ao que parece, gostara muito de uma estátua sua, O Arqueiro, de 1918, que originalmente, em 1925, estava em frente ao Atlético Clube da Hungria, na bela Ilha Margarida. Em 1929 foi trasladada para o Parque da Cidade, naquela que é actualmente a Praça Olof Palme. Ainda lá está. Há quem diga que Voroshilov (ou Vorochilov) terá apreciado sobretudo o aspecto dinâmico e heróico da estátua, muito ao gosto do socialismo realista. O certo, porém, é que O Arqueiro aparece referido em vários roteiros gay e possui, de facto, uma ressonância homoerótica muito nítida, o mesmo acontecendo, de algum modo, com uma medalha de 1925, onde surge um homem nu esgrimindo com a Morte.
 
Kisfaludi Stróbl,
O Arqueiro, 1918
 
 
 
 
 
 
         O facto de uma personalidade como Voroshilov se deslocar ao atelier de Stróbl só tem uma relevância transcendente se percebermos de que personalidade falamos quando falamos de Kliment Yefremovich Voroshilov (1881-1969). Foi, nem mais nem menos, do que um dos apoiantes de primeira hora de Estaline, logo após a morte de Vladimir Illich Ulianov. Como refere Robert Conquest, na sua biografia de Estaline (Stalin. Breaker of Nations, 1991, p. 78), conheciam-se há muito; ao que parece, Estaline encontrou Voroshilov a primeira vez quando este liderada uma greve de trabalhadores do petróleo em Baku; depois, foram ambos delegados ao Congresso de Estocolmo, em 1906, partilhando quarto nessa ocasião. Estaline deu-lhe destaque na Guerra Civil como forma de enfraquecer a autoridade de Trotsky; este protestou, dizendo que Voroshilov «era capaz de comandar um regimento, mas não um exército de 50 mil homens». De acordo com a clássica biografia de Estaline feita pelo trotsquista Isaac Deutscher, Leão Trostky terá mesmo ameaçado levar Voroshilov a um tribunal militar, tal era a sua incompetência castrense. Diz-se até que, de todos os protegidos de Estaline, Voroshilov era aquele que mais irritava Trotsky (cf. Ronald Hingley, Joseph Stalin. Man & Legend, 1974, p. 119). Trotsky julgava que era Voroshilov o culpado pelos constantes actos de insubordinação na «frente czarista» e só mais tarde (tarde demais…) se apercebeu de que o verdadeiro responsável era Estaline (cf. Robert Payne, The Rise and Fall of Stalin, 1965, p. 238). O marechal sempre fez parte do círculo mais restrito dos fiéis a Estaline – e conseguiu a rara proeza de ter sobrevivido a todas as purgas. Destacou-se, aliás, nas purgas do Grande Terror como um dos mais ferozes e impiedosos defensores das matanças em massa. Nos alvores da década de trinta, escreve Montefiore, Vorishlov era «o maior herói do panteão bolchevique». Sebag Montefiore descreve-o, aos cinquenta e poucos anos, como «um comandante de cavalaria simpático e jactancioso, ex-torneiro mecânico, senhor de um belo bigode quase d’artagnesco, cabelos louros e um rosto rosado de querubim» (A Corte do Czar Vermelho, 2006, pp. 28-29). O retrato de Simon Sebag Montefiore é impedioso:
«“Vaidoso como uma mulher”, ninguém gostava mais de uniformes do que Vorochilov. Este boulevardier proletário, que vestia roupas de flanela branca na sua sumptuosa dacha e tinha um equipamento completo para jogar ténis, era um alegre epicurista, “amável e divertido, amante de música, de festas e de literatura”, que apreciava a companhia de actores e escritores. Estaline soube que usava o lenço de pescoço da mulher por causa de uma constipação de Verão: “É natural, gosta tanto de si mesmo que se cuida o mais que pode. Ah! Até faz exercício!”, comentou. “Notoriamente estúpido”, Vorochilov raramente via um pau sem lhe pegar pela ponta errada.
Serralheiro em Lugansk (mais tarde crismada Vorochilov), mal completara, como muitos dos líderes de Estaline, dois anos de escolaridade. Membro do partido desde 1903, partilhara um quarto com Estaline em Estocolmo, em 1906, mas foi em Tsaryn que se tornaram amigos. A partir de então, o Vozhd apoiou o seu “comandante-chefe desde o torno-mecânico” até que se tornou comissário da Defesa, em 1925. Completamente fora de pé, Vorochilov odiava as mentes militares mais sofisticadas com o complexo de inferioridade que era, no círculo de Estaline, uma das paixões mais motivadoras. Desde os tempos em que levava o correio, a cavalo, aos mineiros de Lugansk, o cérebro dele sentia-se muito mais à vontade com o equino do que com o mecanizado.
Habitualmente descrito como um ranhoso cobarde na presença do amo, Vorochilov tinha flertado com as oposições e era perfeitamente capaz de perder a paciência com Estaline, que sempre tratou como um velho amigo. Era muito ligeiramente mais novo do que Koba e continuava a chamar os bois pelos nomes mesmo depois do Terror. De cabelos louros e faces rosadas, olhos calorosos e brilhantes, era meigo por natureza. E a coragem deste beau sabreur não tinha igual. No entanto, por baixo deste aspecto angelical, havia qualquer coisa nos lábios que revelava um feitio petulante, uma crueldade vingativa e um gosto pelas soluções violentas. Uma vez convencido, era “politicamente tacanho”, cumprindo as ordens com rígida obediência.
O culto que lhe prestavam só ficava aquém do de Estaline: até no Ocidente, o romancista Denis Wheatley publicou um panegírico intitulado The Red Eagle – “a assombrosa história do rapazinho que derrotou os soldados profissionais de três nações e é hoje o Senhor da Guerra da Rússia”».
(cf. Simon Sebag Montefiore, A Corte do Czar Vermelho, trad. portuguesa, 2006, pp. 69-70).
 
 
Voroshilov e Estaline, ou vice-versa
 
 
Também o general Dmitri Volkogonov o apresenta em tons algo depreciativos, dizendo que Voroshilov foi apresentado como um herói da Guerra Civil em larga medida devido ao patrocínio de Estaline. «Combatera com coragem, mas com pouca cabeça», resume Volkogonov. E o facto de, no final dos anos vinte, existirem biografias, livros e artigos sobre ele, um tanque de guerra baptizado com o seu nome, etc., pouco incomodava Estaline, já que, na década seguinte, os títulos laudatórios o colocavam numa posição subalterna: «aquele que transmite a vontade do líder», o «marechal vermelho conduzido pelo camarada Estaline» ou o «comissário de Estaline». Eram verdadeiros amigos, mas Voroshilov sempre se sentiu em dívida para com Estaline, a quem devia a fama e a glória, as honras e o conforto. Já então era um «mero executor que não pensava, destituído de opiniões próprias» (cf. Dmitri Volkogonov, Stalin. Triumph & Tragedy, 1988, pp. 249-250).
Na 2ª. Guerra, como seria de esperar, Voroshilov atrapalhou-se, sendo rapidamente substituído no comando da defesa soviética quando os alemães se encontravam já quase às portas de Moscovo. Em Koba, the Dread, saído em 2002, Martin Amis define-o como «cretino», o que não será dos qualificativos mais apropriados, ainda que seja um facto de que um dos desportos favoritos do inner circle de Estaline era gozar com a estupidez e a vaidade de Voroshilov. Mas, pelo menos, o marechal Voroshilov sabia sobreviver, o que não era fácil na corte do czar vermelho. Tanto assinava a ordem que ditou o massacre de milhares de oficiais polacos em Katyn como era capaz de se virar para Estaline e dizer-lhe que este era o grande culpado pelos sucessos da invasão alemã, ao ter dizimado os melhores generais do Exército Vermelho. Após a morte de Estaline, destacou-se, sem sucesso, entre os que se opunham a que os crimes daquele fossem investigados. Mas, sendo toda a vida um fidelíssimo estalinista, não teve destino idêntico ao de Béria (pelo contrário, foi dos que ditaram a queda do odioso Lavrenti). No final da vida de Estaline, e juntamente com Molotov ou Mikoyan, Voroshilov era dos poucos, muito poucos, que o líder ainda queria ver à frente, e isto quando estava bem-disposto e, como era seu velho hábito, lhe apetecia ver um filme com os amigos. Voroshilov era dos mais íntimos, dos que ficaram até ao fim, como acentua Allan Bullock em Hitler and Stalin. Parallel Lives. Em tempos mais recuados, Estaline deleitava-se em cantar conjuntamente com Voroshilov e Molotov, sendo o trio acompanhado ao piano por Zhdanov (cf. Robert Service, Stalin. A biography, 2004, p. 436). Com a chegada de Krutschev, ascenderia ao cargo de presidente do Presidium da URSS. Formalmente, foi, por conseguinte, chefe do Estado da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas entre 1953 e 1960. Mas, por mais coisas que tenha feito na vida e por mais títulos que haja ostentado ao peito, o marechal Voroshilov ficará para a História – e eternamente inscrito! – como aquele-artista-que-deixou-cair-ao-chão-a-Espada-de-Estalinegrado.
 
A Espada de Estalinegrado
 
Expliquemo-nos: por ordem de Sua Majestade Jorge VI, o Reino Unido forjou uma magnífica espada, adornada de oiro e prata, para ser entregue à União Soviética em homenagem pela sofrida vitória na tremenda Batalha de Estalinegrado. O nome era óbvio: Espada de Estalinegrado (e aqui). Foi desenhada por um professor de Oxford, com aprovação final do projecto pelo próprio monarca. Uma comissão de nove peritos acompanhou a execução dos trabalhos, tendo a inscrição em russo sido vista e revista por um prestigiadíssimo especialista em iconografia eslava, professor em Cambridge. A peça, que levou três meses a forjar, é considerada uma das mais brilhantes jóias da armaria contemporânea. Antes de ser oferecida aos soviéticos, a Espada fez um tour pelo Reino Unido, para que o povo a pudesse admirar. Chegou a estar exposta na Abadia de Westminster, episódio que Evelyn Waugh retratou, em tom crítico, na sua trilogia Sword of Honor. Acertou-se diplomaticamente que Winston Churchill a entregaria em mão a Josef Estaline, no decurso da Conferência de Teerão, aquela onde Otto Skorzeny, como vimos, planeou matar os líderes dos Big Three. Vejamos as filmagens da oferta da Espada. Com pompa e circunstância, num ambiente de enorme solenidade, Winston Churchill deposita a Espada de Estalinegrado nas mãos do líder soviético. Este passa-a para o lado, para as mãos calejadas do seu camarada de armas, o portentoso marechal Voroshilov. As imagens da cerimónia foram cortadas na parte mais embaraçosa, mas aqui, nestes vídeos, aos minutos 1:09 e 1:22, percebemos claramente que algo errado se passou. Voroshilov deixou cair a Espada ao chão.
 
 
 
 
Existem diversas versões do desastre, essencialmente reunidas em três teses académicas: (1) a Espada caiu ao chão; (2) a Espada caiu em cima do pé do marechal; (3) o marechal conseguiu apanhar a Espada antes dela cair no soalho. Seja como for, notamos nestas hilariantes imagens o ar atrapalhadíssimo de Voroshilov, que decerto temia que, após o incidente, a sua cabeça fosse a primeira a rolar sob o fio implacável da rutilante Espada de Estalinegrado.
         Tempos depois deste histórico percalço, Voroshilov foi colocado aos comandos doutra exigente tarefa: a sovietização da Hungria. Foi nessa qualidade que se deslocou ao atelier de Stróbl e lhe encomendou um monumento. Antes disso, perguntou ao escultor quais os seus antecedentes biográficos, artísticos e políticos, se dispunha boas condições de trabalho, se tinha gasolina para o aquecimento, aspectos práticos e comezinhos, mas fundamentais nos tempos árduos do pós-gurerra. Em resultado desta conversa altamente produtiva, os vidros partidos das janelas do atelier de Stróbl foram substituídos, chegou uma remessa de combustível para o aquecimento e vários pacotes com alimentos. Numa ocasião, que Stróbl recorda efusivamente nas suas memórias, entregaram-lhe nada menos do que dez quilos de caviar. Voroshilov poderia ser pouco perspicaz em matéria militar, mas era um esteta que se deleitava em conviver com artistas.
 

Zgismond Kisfaludi Stróbl (1884-1975) 

 
         Endereçado no início de Setembro de 1945, o convite para desenhar o memorial surgiu formalmente do governo da Hungria mas, na prática, era uma encomenda pessoal de Voroshilov, acompanhada de dez quilogramas de ovas de esturjão. Stróbl, muito obediente a estas hierarquias, tinha isso em mente. Despachou-se com a empreitada, pronta em dezoito meses. Tratava-se de gizar um conjunto onde convivessem, tão harmoniosamente quanto possível, uma figura feminina com uma palma nas mãos, uma jovem a correr com uma tocha acesa e um homem musculoso à luta com um dragão. A que acrescia um soldado soviético com uma bandeira triunfal e dois baixos-relevos: um alusivo à amizade húngaro-soviética, outro saudando a reconstrução de Budapeste. «Poderia haver melhor tarefa do que preservar, na pedra e no bronze, a memória heróica dos nossos salvadores e libertadores, que sacrificaram as suas vidas por nós?» − pergunta Stróbl nas suas memórias, publicadas em 1969 (e, muito grato e obsequioso, em 1955 faria o busto de Voroshilov, seu patrono).  
 
Kisfaludi Stróbl,
Busto de Voroshilnov,
1955
 
 
Apesar do seu discurso grandiloquente, o facto é que Stróbl sempre foi um servidor do gosto dominante. No seu academismo de salão, fez esculturas de George Bernard Shaw e de vários príncipes e princesas da Hungria, e não só. Em 1937, desenhou o busto a uma jovem princesa britânica: Isabel, filha de Jorge VI, futura rainha de Inglaterra. Em bom rigor, Stróbl era um conformista, que só se desviara uma vez dos caminhos convencionais; decidiu, por sua alta recriação, dar forma à figura de um soldado revolucionário que encontrou nos levantamentos subsequentes à Grande Guerra. Cópias desta sua obra foram usadas nas celebrações do 1º de Maio de 1919. O artista, ao que parece, viu-se em trabalhos por causa da estátua do soldado rebelde, jamais tendo a ousadia de esculpir fora da linha.

 
Kisfaludi Stróbl,
O Soldado, 1919
 
 
O militar que criou para o Memorial da Libertação não corria esses riscos. Cumpria ao milímetro a nova regra soviética. Diz-se que o modelo foi o soldado Vasili Ivanovich Golovcov, do Exército Vermelho. Há quem lhe confira o grau de sargento, dizendo que, cerca de vinte anos depois da inauguração da obra, o levaram a conhecer a estátua e o artista que a concebera, sendo as imagens filmadas por documentaristas soviéticos. Será que estamos a falar de Vasili Ivanovich Golosov, um dos mais conhecidos snipers da 2ª Guerra? A sua pontaria fez 422 vítimas e o Exército Vermelho galardoava todos quantos matassem acima dos 50 inimigos, o que era o caso. No sinistro top ten dos melhores snipers da 2ª Guerra, apenas um deles não é soviético. Simo Häyä, pacato agricultor, era chamado «Morte Branca» pelos seus camaradas do Exército Vermelho. No cadastro tem entre 542 (confirmadas) ou 705mortes (não confirmadas).  Vasili Golosov averba 422 mortes, onde se incluem 70 outros snipers, seus adversários. Não admira, pois, que seja uma das personagens do jogo Call of Duty 2.
 

Vasili Ivanovich Golosov
 
Call of Duty 2
 
Antes da honra de figurar num jogo de vídeo, Golosov terá sido imortalizado em bronze. Trata-se de uma suposição, aliás arriscadíssima, mas que pode ter fundamento. Para mais, o sniper e a estátua têm algumas parecenças. Em 1956, quando se dá a revolução na Hungria, derrubaram muitas estátuas. Uma delas, como se sabe, foi a de Estaline, cuja gigantesca cabeça andou a rolar pelas ruas de Budapeste, em imagens muito célebres. Outra vítima foi o soldado da Colina Géllert. Deitaram a estátua abaixo, só ficando os pés em cima de um plinto de sete metros. Com a reposição da ordem, repôs-se também a estátua. De facto, e para que não restassem dúvidas sobre quem mandava ali nas margens do Danúbio, em 1958 uma réplica exacta foi colocada naquele lugar.



Parque das Estátuas, Budapeste.
Fotografias de António Araújo
 
Mais tarde, a réplica foi removida, encontrando-se hoje no Parque das Estátuas, nos arredores de Budapeste. Foi lá que a vi, ainda imponente, mas já sem a chama belicista de eras pretéritas. A estrela do obelisco, que eu saiba, desapareceu de vez. Creio que tudo se passou logo em 1989 (ou princípio da década de noventa), quando removeram a estrela e a estátua do soldado, tendo as inscrições no obelisco sido mudadas. Onde se lia «À memória dos heróicos soviéticos libertadores. O povo da Hungria, agradecido» passou a ler-se «À memória de todos os que sacrificaram as suas vidas pela independência, liberdade e prosperidade da Hungria». A estátua central do monumento deixou de chamar-se «Estátua da Libertação». Agora é «Estátua da Liberdade».  
 

A estátua do soldado:
derrubada em 1956, foi feita uma cópia, posteriormente transferida para o «Memento Park» 

 
 
Além do soldado soviético, na efémera revolução de 1956 também quiseram deitar abaixo a rapariga com a tocha. Ao que parece, foram os estudantes da Universidade Técnica (por sinal, um majestoso edifício, não muito longe dali) que se opuseram à remoção da flamejante jovem. Segundo os estudantes, a rapariga poderia ficar, pois era uma alegoria da liberdade, bem adaptada às esperanças da rebelião húngara. Ainda lá está hoje. Mas, não sei em nome de que tradição, tem as nádegas num estado lastimável, cobertas de pastilhas elásticas. O mesmo não sucede com o homem ao lado, tratado mais respeitosamente. Vê-la assim é algo estranho, até triste. Um turista qualquer, bastante palerma, deve ter começado a vandalização. Seguiu-se outro, mais outro depois e rapidamente se transitou da libertação para a liberdade e desta para a libertinagem. Vede o desconchavo:    



 




 
 
 


Fotografias de António Araújo
 
 
A Estátua da Libertação/Liberdade foi feita tendo por base um modelo de carne e osso, uma jovem de nome Erzsébet Gaál Thuránszkyné. Criada num orfanato, aos 20 anos serviu de inspiração a Stróbl. A rapariga, que não recebeu quaisquer honorários pelo seu trabalho como modelo, iniciou pouco depois uma relação amorosa com um funcionário alfandegário austríaco. Os soviéticos não gostaram. Erzsébet foi proibida de sair do país até ao fim da vida. 
 
 
Erzsébet Gaál Thuránszkyné, o modelo

 
 
 
Os húngaros adoram estátuas – e Budapeste tem uma estatuária extraordinária. Além do brilhantismo matemático, terá sido, porventura, este apreço pelas formas e pela sua dinâmica que os levou a conceberem o Cubo de Rubik e, mais recentemente, o lindíssimo Gömböc. Afeiçoaram-se à Estátua da Liberdade, a quem chamam na gíria «Abre-Garrafas» (as formas, de facto, assemelham-se a um abre-garrafas). É um símbolo de Budapeste, muito reproduzido e alvo de variados pastiches. Já apareceu em selos postais e, entre 1970 e 1995, circulou nas moedas de 10 HUF.
 
 
 







 

Uma acção do Greenpeace





 
 







 
 
Recentemente foram ensaiadas aqui, em jeito de brincadeira, alternativas criativas para o topo da Colina Géllert, substituindo o Monumento da Liberdade e a Cidadela. 
 
 

   
 
 
A primeira e única vez que a Hungria enviou um astronauta ao espaço, em 1980, este levava no bolso uma miniatura da estátua. É certo que Bertalan Farkas (n. 1949), assim se chama o viajante dos astros, hoje tornado político conservador, embarcou numa nave soviética, no âmbito do programa espacial Intercosmos. Por isso, estando a bordo da Soyuz 36, era um gesto de elementar cortesia para com os anfitriões levar algo que recordasse a amizade húngaro-soviética. Nada melhor do que uma miniatura da Estátua da Libertação.
 
 
 
Imagem pré-1989



 
 




 
 
 
Fotografias de António Araújo
 


Agora, o homem. A figura masculina representa um homem musculado prestes a esmurrar um dragão malvado. Não é claro de que figura mitológica se trata, se é que se trata de uma figura mitológica. Muito possivelmente, estamos perante uma alusão a Hércules, por razões tão conhecidas que me abstenho de explicar. A inspiração será essa, muito possivelmente. Sendo assim, não há como deixar de falar de outra estátua. Por sinal, a uma vítima do estalinismo, que desapareceu na sinistra sede da polícia política em Moscovo, na Praça Lubyanka. Trata-se do grande Raoul Wallenberg, o diplomata sueco que, desde que foi colocado como secretário da Legação da Suécia em Budapeste, em Julho de 1944, salvou a vida a muitos milhares de judeus. Desapareceu durante o cerco de Budapeste, em Janeiro de 1945, e, anos depois, em Fevereiro de 1957, Andrei Gromyko reconheceu oficialmente que tinha morrido na Prisão da Lubianka. Logo em 1945, ano do seu desaparecimento, foi criado um Comité Wallenberg que, sob o patrocínio de Béla Zsendényi, o presidente da Assembleia Nacional Provisória, propôs às autoridades municipais de Budapeste que se erigisse um memorial em homenagem ao diplomata sueco. Como refere Bob Dent, num livro já citado, encomendou-se o trabalho ao escultor Pál Pátzay (1896-1979), que fez uma estátua de um homem em luta com uma serpente: aquele simbolizando a força e o Bem, esta encarnando o Mal. Trata-se de uma alusão óbvia ao combate entre Hércules e Aqueloo, tal como relatado nas Metamorfoses de Ovídio (sim aquele livro clássico em que o adivinho Tirésias tem a capacidade transgender de mudar de sexo, de homem para mulher e, depois, regressar à masculinidade). A inspiração de Pátzay, que estudara em França,  foi uma das mais famosas representações escultóricas da luta entre Hércules e Aqueloo, feita em 1824 pelo barão François Joseph Bosio. Essa, sem dúvida, é uma escultura extraordinária, que durante anos esteve nas Tulherias e agora, mais abrigada, pode ser vista numa das galerias do Louvre.





François Joseph Bosio,
Hércules, 1824
 
A estátua de Pátzay tem uma história fabulosa. Em 9 de Abril de 1949, no dia aprazado para a inauguração… a estátua desapareceu do lugar marcado. Esfumou-se, mais ou menos como aquele que visava homenagear. Aos soviéticos, naquela altura, não interessava nada que se falasse de Wallenberg. Anos depois, por razões que se ignoram, a estátua apareceria frente à empresa farmacêutica Biogal, na localidade de Debrecen, no sudeste da Hungria. Agora, já não tinha nada a ver com o incómodo diplomata sueco, sendo apresentada como símbolo da luta contra a doença. A figura estilizada tornou-se emblema da firma de medicamentos. Uma cópia da estátua, em tamanho mais reduzido, aparecia também, como que por milagre, defronte da Clínica de Radiologia sita na Üllői út em Budapeste. Somente em 1989 ali colocaram uma placa dizendo tratar-se de uma evocação de Wallenberg.


Pál Pátzay,
esculpindo o monumento a Wallenberg

Pál Pátzay,
Monumento a Wallenberg, 1949


O símbolo da farmacêutica Biogal

Réplica existente na Üllői út, Budapeste 
 
Uma cópia do original


 
 
  
Em Budapeste continuou a tentar-se que o herói sueco fosse homenageado. Ainda antes da perestroika, no ano de 1985, começam a existir movimentações para que uma nova estátua fosse erguida à sua memória. Numa jogada combinada, os embaixadores dos Estados Unidos e da Suécia conseguiram, através de um estratagema que me abstenho de descrever, encostar János Kádár à parede, praticamente impondo-lhe que este autorizasse a construção da estátua antes de iniciar uma visita oficial a Estocolmo. E assim foi. Correndo contra o tempo, o escultor Imre Varga (n. 1923) conseguiu ter a estátua pronta em 1987. O monumento, como se pode ver, não é grande coisa, mas contém uma alusão explícita à estátua de Pátay que havia desaparecido no dia da inauguração. Varga fará outra estátua, bem mais criativa, de homenagem ao martírio dos judeus húngaros e à acção de Wallenberg. Datada de 1991, encontra-se junto à Grande Sinagoga de Budapeste e tem a forma de um menorah invertido. Em cada folha, o nome de uma família vítima do Holocausto. 
 
Imre Varga,
Monumento a Wallenberg, 1987
(note-se a alusão à estátua de Pál Pátzay)
 
 
 
A figura de Hércules em combate com Aqueloo serviu de inspiração a Bosio e a Pátay, mas está também presente, de modo inquestionável, na figura masculina do monumento da Colina Géllert. Aliás, noutros lugares da Hungria (e não só), a representação da luta entre o Bem e o Mal é frequentemente apresentada sob esta forma.
 
 
 
E, a este propósito, é impossível não lembrarmos uma obra de Yevgeny Vuchetich (1908-1974). Já falámos dele aqui, a propósito da «Mãe de Brejnev». Vuchetich concebeu a estátua Transformemos as Espadas em Arados, que ornamenta os jardins da sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. A URSS ofereceu-a à ONU em 1959, sendo curioso um país comunista entregar uma estátua que ostenta uma citação bíblica, constante do Livro de Isaías (2: 3-4), muito usada em vários discursos a favor da paz, como o farewell adress de Eisenhower (a alocução em que este falou do «complexo militar-industrial), nas intervenções de Jimmy Carter, Sadat e Begin em Camp David, em 1979, no discurso de Reagan na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1987.  
 
Yevgeny Vuchetich,
Transformemos as Espadas em Arados, 1957
 
 
 
 
Oferta da estátua pela URSS à ONU,
Dezembro de 1959
 
 
É flagrante a ligação, mesmo que inconsciente, à luta de Hércules com Aqueloo. Mais ainda: Vuchetich, o autor da estátua, é também autor de uma monografia sobre Stróbl. Sim, sobre o escultor que concebeu o Monumento à Libertação que encima a Colina Géllert, visível de praticamente todos os pontos de Budapeste. Por conseguinte, é muito provável que Vuchetich, conhecedor da obra de Stróbl, tenha tido presente o Hércules de Budapeste quando concebeu Transformemos as Espadas em Arados. O que Vuchetich não sabia é que a sua estátua, num processo interessantíssimo de apropriação – ou, como diria Ovídio, de metamorfose – se iria converter num símbolo da luta a favor da paz e, mais do que isso, de contestação ao domínio comunista. Em 24 de Setembro de 1983, o pastor protestante Frierich Schorlemmer, levou a cabo uma acção de protesto em Wittenberg, a cidade natal de Lutero, no decurso do Congresso das Igrejas Protestantes. Um ferreiro de profissão, Stefan Nau, transformou, à frente de todos, uma espada num arado. As autoridades da RDA nada puderam fazer, pois no Congresso participava Richard von Wezsäcker, então presidente da câmara de Berlim. Os media do Ocidente relataram o incidente e, desde então, a estátua de Vuchetich, um artista fidelíssimo aos ideais soviéticos, converteu-se num dos mais poderosos símbolos da resistência alemã à presença da URSS. Um livro de Rainer Eckert e Kornelia Lobmeier conta a história ao pormenor. Foi editado em 2007 pela Casa da História da República Federal da Alemanha e intitula-se precisamente Schwerter zu Pflugscharen. Geschichte eines Symbols. Aliás, quem for visitar o Palácio das Lágrimas, em Berlim, de que já falámos aqui, poderá ver uma ampla exposição sobre este episódio.
  


 
Berlim, Palácio das Lágrimas
Fotografias de António Araújo

 
 

 
 
 
 
«Espadas em Arados» tornou-se o mote do movimento pacifista na República Democrática Alemã e a escultura de Vuchetich, estilizada, converteu-se, sobretudo para os jovens cristãos, num emblema poderosíssimo de protesto contra a crescente militarização da RDA. Uma obra de um dos artistas soviéticos mais conceituados tornar-se-ia, assim, num sinal fortíssimo de libertação e liberdade. A história pessoal de Stefan Nau é que é mais triste: após a reunificação, o heróico ferreiro de Wittemberg deixou de ter trabalho…
Com a queda do Muro e as mudanças na URSS, de novo quiseram mudar a estátua de Budapeste. Em 1990, na sequência de eleições livres para o conselho municipal da cidade, a nova governação removeu muita estatutária dos tempos comunistas. Chegaram a pensar remover a Estátua da Libertação, mas acabaram apenas por tirar de lá o soldado soviético e mudar as inscrições no obelisco. O povo gosta da escultura, é um símbolo de Budapeste.


 
 



A Estátua continua lá, ainda que agora se chame da Liberdade. Em 1992, um artista criativo, com o soberbo nome Tamás St. Auby, cobriu a estátua com um gigantesco pano branco, dizendo que pretendia transformá-la no «fantasma do comunismo».
 
 
 
 
 
 
Em paralelo, na Internet, aqui, graças ao fantasma do capitalismo, vende-se (ou vendia-se) uma réplica da estátua, assinada por Stróbl, por cerca de 800 euros. Coisas…
 

 
 
 
 
Por ironia do destino, na Praça da Liberdade, em Budapeste, permanece um imponente monumento russo (como, aliás, em Viena ou Berlim). Perto dele, uma estátua de Ronald Reagan, pois ali fica a Embaixada dos Estados Unidos. Foi nesse edifício que, refugiando-se das perseguições do comunismo, viveu vários anos asilado o Cardeal József Mindszenty, cuja celebração litúrgica na Igreja da Rocha foi interrompida a 13 de Maio de 1948.
Foi na Igreja da Rocha que, numa tarde chuvosa, ameaçando trovoada, comecei a escalada da Colina Géllert. Agora, era tempo de deixar a Estátua da Liberdade (em húngaro: Szabadság Szobor), que outrora foi da Libertação.





Fotografias de António Araújo



Ao crepúsculo, continuava a divisar-se a sua figura, na outra margem do Danúbio. Agora que estava em Pest, lembrei-me que, por mais voltas que o mundo tivesse dado, conhecendo o nazismo e o comunismo, a liberdade sempre estivera no coração de Budapeste – e na alma dos húngaros.
 
Café New York
Fotografia de António Araújo
 
 
No elegantíssimo Hotel New York (hoje, Hotel Boscolo), um dos tectos do salão de chá exibe uma alegoria da Estátua da Liberdade. O hotel foi construído em 1891-1895, com um esplendoroso interior neobarroco. Agora, existem duas representações da Liberdade na capital da Hungria. Uma, no cimo da Colina Géllert. Outra, no tecto do New York Café.
Esperemos que ambas se mantenham, para bem de todos – da Hungria e da Europa.
  
 
António Araújo