terça-feira, 5 de maio de 2015

Cães de guarda e polícia (em francês).

 
 
 







Decálogo do Bom Desportista.

 
 
 
 
 
 
 
O bom desportista não é agente inconsciente e passivo do treino a que se sujeita, mas o melhor fiscal da sua própria acção. É facto essencial no trinómio da colaboração médio-pedagógica em educação física, no qual o médico e o treinador são, como orientadores e fiscalizadores desse treino, os indispensáveis obreiros. O desportista é o único capaz de eliminar as soluções de continuidade que o treino e o exame médico-pedagógico, sistematicamente, oferecem.
 

Estatutos da Associação Portugal-URSS.

 
 
 
 
 
 
Artigo 5º − A Associação não tem carácter partidário, estando aberta a todos os que adiram aos seus objectivos de intercâmbio, cooperação e amizade entre o povo Português e os povos da União Soviética.

URSS, mal amada bem amada, de Fernando Namora.

 
 
 
 
 
A propósito, diga-se que na URSS (melhor: em qualquer país socialista) antes ou logo após uma entrevista na TV, na rádio, na imprensa, nos é discretamente entregue um sobrescrito: dentro dele, uma remuneração substancial. Entrevista é trabalho, ou tem por detrás, normalmente, anos de devoção a uma ideia. E trabalho é para ser recompensado – não nada tem que ver com o apego ou o desapego aos dinheiros.


Educar, de Agostinho de Campos.

 
 
 
 
Chamamos cábula  a um estudante que, no meio dos outros que trabalham, estuda pouco ou nada; e para quem o tempo se esvai, como o fumo no ar, sem ser aproveitado em qualquer cousa útil e saudável. Personagem pouco simpática, e muito perigosa, para si e para os outros.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Objectivo: Berlim, 6 de Junho de 1945.

 
 
 
 

Fonte: http://www.stadiumguide.com/olympiastadionberlin/

 
Após duas semanas de futebol emocionante temos as meias-finais da Liga dos Campeões. La Liga mantém a sua supremacia e pela quinta vez seguida há duas equipas espanholas entre as quatro melhores da Europa. Na verdade é mesmo uma vitória do futebol latino se incluirmos os italianos da Juventus, sendo o Bayern de Munique a «carta fora do baralho». As quatro equipas querem chegar a Berlim e disputar a final a 6 de Junho no Estádio Olímpico. Um estádio inicialmente construído para os Jogos Olímpicos de 1936 que ficaram na história pela conquista de quatro medalhas de ouro pelo norte-americano Jesse Owens, furando assim os planos do líder nazi de mostrar ao mundo a «supremacia ariana». Hoje em dia e depois de uma grande remodelação é a casa do Hertha.
E o que podemos esperar dos jogos entre a Juventus e o Real Madrid? O campeão em título parece estar mais confiante depois de um início de 2015 pouco convincente. Os merengues foram capazes de exorcizar o seu pior fantasma ao longo desta época e finalmente venceram os homens de Simeone. E com um golo de um jogador, o mexicano Chicharito, que parece ter regressado à vida. Para Carlos Ancelotti a ida a Turim será uma prova de fogo importante tendo em conta que após uma primeira volta impressionante no campeonato espanhol o Real está «apenas» em segundo lugar e foi eliminado da Taça do Rei pelos rojiblancos. Cristiano Ronaldo lidera os melhores marcadores da Liga com 42 golos e tem sido indispensável. No jogo em Sevilha CR7 mostrou novamente a sua enorme qualidade e marcou mais um hat-trick ou como diria a Marca um hat-cris. A equipa de Ancelotti quer fazer história e «dobrar» a Liga dos Campeões, algo que nenhuma equipa (nem mesmo aquele Barcelona) consegue fazer desde o Milan de 88/89 e 89/90. Para Ancelotti seria repetir o feito enquanto jogador e treinador.
 
 
Fonte: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=795643&tm=47&layout=158&visual=49


No entanto, a Juventus não será uma equipa fácil. Quem diria no início da época que chegaria até aqui? Lembro-me bem da contestação a Massimiliano Allegri e das hesitações sentidas em relação à sua capacidade de manter o trabalho de Antonio Conte. Mas os êxitos da Juve dissipam quaisquer dúvidas. A Juventus sagrou-se campeã nacional e é finalista da Taça de Itália. Mas é o êxito europeu que tem deixado os bianconeri eufóricos e Allegri tem uma grande responsabilidade neste «regresso». Em primeiro lugar por ter abandonado a regra de defender sempre com três centrais, geralmente Barzagli, Bonucci e Chiellini, e ter introduzido maior flexibilidade táctica consoante o adversário. Esta flexibilidade ficou por demais evidente nos jogos contra o Borussia de Dortmund e o Mónaco. Em segundo lugar pelo equilíbrio entre a juventude de Pogba (que infelizmente continua lesionado) ou Morata e a experiência de Pirlo ou Buffon.
O facto de ter o campeonato resolvido bem como menos pressão para vencer – o Real é claramente favorito – são vantagens que a Juventus vai certamente explorar. O campeão italiano tem muito menos a perder com esta eliminatória e irá apoiar-se no ADN defensivo e táctico da melhor tradição do calcio bem como num contra-ataque mortífero liderado por Carlos Tévez. Um jogador completamente renascido e que tem sido crucial para as vitórias da equipa de Turim. Outra arma importante são os livres e aqui a Juventus conta com um Mestre: Andrea Pirlo. Há muitos, muitos exemplos dos seus golos mas destacaria o último face ao Torino. Apesar de os bianconeri terem sido derrotados no derby de Turim o livre de Pirlo é um golaço (e outro que foi ao poste).
 

https://en-maktoob.news.yahoo.com/photos/juventus-andrea-pirlo-left-scores-free-kick-during-photo-143618794.html

 
 
Mas é o confronto entre o Barcelona e o Bayern de Munique que está no centro de todas as atenções. Desde logo pelo regresso de Pep Guardiola a casa. Pep irá certamente treinar outros clubes mas será sempre um filho dilecto de Camp Nou. Se por um lado conhece como ninguém as fraquezas e as vantagens do Barça, por outro será uma viagem emocional muito intensa. É a primeira vez que irá defrontar a equipa culé e logo numa meia-final da Liga dos Campeões. Apesar das lesões que têm assolado a equipa bávara e das quais temos que destacar as de Robben, Ribéry e Alaba (parece que Lewandowski vai recuperar a tempo do jogo na Catalunha), o Bayern já é campeão da Bundesliga. Assim, tal como a Juventus, tem a frente interna resolvida embora tenha falhado face ao Borussia de Dortmund a passagem à final da Taça. Do outro lado temos Luis Enrique que jogou com Guardiola no Barça e que tem aqui um momento muito importante da sua carreira de treinador. Depois de um início de campeonato mais turbulento a equipa catalã está em primeiro lugar e, tal como a Juventus, é finalista da Taça. E tendo em conta as suas exibições sobretudo na Liga dos Campeões tem vindo a recuperar o seu futebol artístico.
 
 
 

Vai ser muito interessante ver como é que duas equipas que privilegiam a posse de bola se vão defrontar e quem conseguirá vencer. Temos ainda a curiosidade de termos os irmãos Alcántara, filhos de Mazinho: Thiago e Rafael, mais conhecido como Rafinha. Depois de uma lesão muito grave que parece estar ultrapassada, o regresso de Thiago é uma excelente notícia para o Bayern e para o futebol. É um jogador de uma qualidade técnica espantosa que tem tudo para ser um dos melhores do mundo e que será, em princípio, titular. Duvido muito que o seu irmão Rafinha comece a jogar de início apesar das suas excelentes exibições ao longo da época. A concorrência no meio-campo do Barça é muito, muito grande.
Para além de todos estes ingredientes temos ainda craques como Manuel Neuer, Xabi Alonso, Philipp Lahm, Javier Mascherano, Andrés Iniesta ou Lionel Messi. Tem sido fascinante assistir à transformação de Leo Messi nos últimos tempos e ao acentuar da sua versatilidade. Para além dos muitos golos tem vindo a tornar-se um maestro. As suas assistências e os passes que rasgam a defesa dos adversários são uma constante desta sua nova «função». Cada vez mais Messi distribui jogo e «alimenta» os seus colegas em campo e isso vale ouro sobretudo se tivermos em conta que os anos vão passando. Claro está que quem treina com Xavi e Iniesta … Messi fará 28 anos no final de Junho e por isso tem ainda muito para jogar mas é de facto extraordinário como o melhor futebolista do mundo vai preparando a parte final da sua carreira.
 

Fonte: http://www.free-project.eu/Blog/post/the-birth-of-the-panenka-721.htm


E quando achamos que não nos consegue surpreender … Messi tira um coelho da cartola. E assim foi contra o Getafe quando marcou um penalti ao estilo de Panenka, o grande jogador checo (na altura dizia-se checoslovaco) que inventou esta forma de bater grandes penalidades. É um gesto técnico que exige nervos de aço. No caso de Antonin Panenka foi o ingrediente para a vitória frente à Alemanha (na altura República Federal) no Campeonato Europeu de 1976 realizado na Jugoslávia (que também já não existe). Em relação ao penalti de Messi o próprio Panenka foi peremptório: «foi o melhor até agora».
E é devido a «ingredientes» desta qualidade que o futebol é um desporto mágico e absolutamente viciante.
 
 
Raquel Vaz-Pinto

Chá no Chile.

 
 
 





Veio do Chile, passou pelo IDFA em Amesterdão e agora vai à XII edição do DocumentaMadrid. Apanhámo-lo no trajecto pois é das coisas que Malomil mais aprecia: histórias de pessoas. Se atravessarem o passar do tempo, melhor ainda.

         É o caso deste filme documental, La Once. Desde pequena, a cineasta chilena Maite Alberdi via a sua avó tomar chá com um grupo de amigas. Uma vez por mês, todos os meses do ano, mesmo que chovesse em Santiago. Andam nisto há 60 anos. Maite Alberdi, como é evidente, só apanhou uma parte da história sexagenária, os últimos cinco anos. Desde 2009, todos os meses aguardava a reunião das cinco senhoras que andam a tagarelar e a mexericar há seis décadas. Não falham um encontro, são antigas amigas do colégio e assim se mantiveram pela vida fora. Falam do passado, da morte circundante e, como é natural, muito pouco do futuro.
 
 
 
            Presenciamos apenas a recta final deste grupo de senhoras, mas pomo-nos logo a pensar, muito cuscas: de que falariam quando eram mais novas? Comentariam a vida política, Allende e Pinochet? As torturas e as mortes, os desaparecidos? Na sinopse do filme, disponível no site que o acompanha (http://www.teatimethemovie.com), refere-se que estas senhoras, por origem e formação, têm uma orientação conservadora. Mas dá-se a entender que algumas divergências políticas terão provocado discussões acesas no interior do grupo. Mas, por maiores que fossem as discrepâncias de opinião – e bem fortes elas terão sido, num país tão dilacerado –, jamais foram capazes de abalar a amizade antiga, forjada nos bancos de colégio. Há gente estúpida capaz de se zangar por diferenças de opinião. Outros, pior ainda, fazem da ideologia uma fronteira de inimizade. Não percebem que, com isso, só se empobrecem, e empobrecem a vida toda. A vida deles e a nossa, a nossa comunidade de destino. Aqui não aconteceu nada disso. Durante 60 anos, prevaleceu o bom senso e a amizade.  Mesmo chovendo em Santiago, o ritual manteve-se, entre bolos de creme e maquilhagens carregadas. Conservador, talvez. Encantador, sem dúvida.







 
 

domingo, 3 de maio de 2015

As cartas de Libertas.

 
 
 
Libertas Schulze-Boysen (1913-1942)
 
 
         Nas primeiras semanas de Setembro de 1942, Libertas Schultze-Boysen, uma jovem de 29 anos, aguardava ansiosamente a chegada do seu marido, funcionário do Ministério da Aviação em Berlim. Durante algum tempo, ela e o seu marido juntaram-se a um grupo de opositores ao nazismo, formando a famosa «Orquestra Vermelha» (Rote Kapelle), que transmitiu informações secretas aos soviéticos. Essas informações davam conta de que Hitler se preparava para invadir a União Soviética e, se Estaline as tivesse levado a sério, poderiam ter poupado milhões de vidas humanas.
         Uma semana depois da prisão do seu marido, a Gestapo veio buscar Libertas a casa. Levaram-na para a sede da polícia política do III Reich, o edifício que antes tinha sido a Escola de Artes e Ofícios de Berlim, de que o pai de Libertas, um dos mais conhecidos costureiros berlinenses, era reitor. Ao entrar no nº 8 da Prinz Albertstrasse, Libertas deu uma gargalhada, rindo-se dessa ironia da História. Não esteve muito tempo presa. Em 19 de Dezembro de 1942, um tribunal marcial condenou-a à morte. Três dias depois, seria guilhotinada.
         Na prisão, escreveu algumas cartas à sua mãe, que se encontram reunidas num livro extraordinário, Dying We Live. Letters written by prisoners in Germany on the eve of execution, organizado por Hellmut Gollwitzrer, Käyje Kuhn e Reinhold Schneider. Com base na edição inglesa, traduzimos as duas cartas que escreveu à mãe no dia da sua morte. Porque hoje é o Dia da Mãe.
         Na primeira carta, Libertas pedia à mãe que o seu corpo fosse enterrado no campo, num lugar belo, iluminado pelo sol. Nem essa dádiva lhe concederam. Como refere Heather Pringle aqui, um artigo publicado por Sabine Hildebrandt na revista Clinical Anatomy, em 2013, identificou o cadáver de Libertas como um dos corpos que foram entregues como «material de estudo» a Hermann Stieve, director do departamento de anatomia da Universidade de Berlim (aqui).
         Os médicos anatomistas alemães, como refere Heather Pringle, que aqui seguimos de perto, sempre se debateram com falta de cadáveres para as suas aulas ou investigações. Com a subida ao poder dos nazis, o problema foi resolvido: entre 1933 e 1945, os tribunais do Reich condenaram à morte 16.000 civis alemães. Os cadáveres de 174 mulheres, pelo menos, foram transportados para os gabinetes de dissecação de Hermann Stieve. Entre eles, o de Libertas. E, no mínimo, cerca de dez institutos de investigação da Alemanha receberam 3228 corpos de presos políticos condenados à morte. Após a guerra, muitos anatomistas reconheceram que, a partir de certa altura, deixaram de perguntar de onde vinham os corpos, deixaram de se questionar sobre o horror que os cercava – e de que, ao contrário de Libertas, foram cúmplices e beneficiários. Como disseram recentemente dois anatomistas de Viena, numa entrevista, «se ninguém se preocupava como aquilo, porque é que teríamos de ser nós a preocupar-nos?»
         Podendo acomodar-se ao nazismo e fazer valer as suas origens aristocráticas (era neta do príncipe de Eulenburg e tia-avó da actual princesa do Lichenstein), Libertas preocupou-se. Acabou condenada à morte, e executada na guilhotina. Estas são as duas cartas que, no dia em que foi executada, escreveu à sua mãe. 
 
 
***
 
 
         Carta escrita no dia da sua morte
 
         22 de Dezembro de 1942
 
 
         Minha querida Mamã,
        
         Dado que estou já a viver um sonho do qual, afortunadamente, nunca terei de despertar para me confrontar com uma realidade horrível, é difícil exprimir-me através de palavras. Estás comigo no meu coração. Oh, se pudesse tomar-te em mim completamente, poupando-te ao sofrimento que já superei…
         Tudo surgiu repentina e inesperadamente, mas as horas anteriores ao julgamento, e mesmo as que vivo agora, são tão grandiosas que senti que nada poderá ser mais grandioso.
         «Ó graça, amadurecer num corpo jovem» − encontrarás este poema nas minhas coisas e então sentirás a sua absoluta verdade.
         A cada momento, sinto-me ascender em direcção ao céu…
         Quando sei que sorris, cheia de fé, tudo está bem. Deixei já de sofrer, e tudo me parece aprazível, sem uma réstia de terror… Todas as correntes da minha vida tormentosa confluíram, todos os meus desejos se realizaram: serei sempre jovem na memória de todos vós… E não terei de sofrer mais.
Permitiram-me que morresse como Cristo morreu – por toda a Humanidade.
         Permitiram-me que passasse por tudo o que os seres humanos são capazes de passar.
         E, uma vez que ninguém morre antes de cumprir a sua missão, devido ao conflito inscrito na minha natureza somente esta morte tornou possível que realizasse algo grandioso.
         Minha querida, continuaremos juntas. Encontrámo-nos uma à outra na Luz, e agora posso trazer-te em direcção ao alto, da mesma maneira que tu me puxaste para cima nas últimas semanas no convento.
         Amo o mundo, não carrego ódio algum, tenho comigo a Primavera eterna.
         Não lamentes que as coisas poderiam ter acontecido doutra maneira, não te queixes disto ou daquilo – o destino ordenou a minha morte. Eu própria a desejei…
         Como último desejo, pedi que a minha “substância” te fosse entregue. Se possível, enterra-a num lugar belo, num campo iluminado pelo sol.
         Agora, minha querida, a hora soa.
                  Em infinita proximidade e alegria,
                   Toda a força e toda a luz…
         A tua menina
 
***
 
 
 
         Segunda carta de despedida (*)
 
         Sim, minha Querida, minha forte e minha única Mamushka: aquilo que pude passar nestes dias foi tão belo e maravilhoso que as palavras dificilmente conseguem descrevê-lo…
         Agora conheço as últimas verdades da fé, e sei que és forte e feliz por teres consciência da nossa união eterna.
         O teu anjo a trespassar Maligno com a sua lança (que me mandaste no meu aniversário) encontra-se diante de mim. Se posso pedir-te alguma coisa, peço que fales de mim a toda a gente; a toda gente. A nossa morte tem de ser um farol para os outros.
         Em todos vós, na minha pequena irmã, no meu pequeno irmão, nas crianças – vocês são tão próximos –, em todos vós eu vivo; e digo-vos com toda a gravidade que marca esta hora:
         Encontrei o meu desígnio, a minha própria morte; jamais me poderia ter sido concedida graça maior do que esta. E não me tornem a vida difícil “desse lado” com lágrimas. Juntem-se à minha alegria.
 
Está tudo bem comigo.
A tua menina         
 
 
         (*) Escrita nas últimas horas da sua vida, quando Libertas não tinha a certeza se o tribunal iria enviar a primeira carta que escrevera. Através de canais clandestinos, esta segunda carta acabaria por chegar à sua mãe.
 

Pas de deux.

 
 
 
 




 


 


 
 
 
 
As primeiras palavras d’Os Anjos de Apolo, de Jennifer Thomas, são uma dedicatória. Para o Tony. É-me indiferente saber se o marido de Jennifer Thomas, o historiador Tony Judt, já então se encontrava afectado pela doença atroz que o vitimou. Os Anjos de Apolo é, tão-só, a melhor história do ballet que existe em língua portuguesa. Logo nas primeiras páginas, a sua autora diz que o ballet pode ter chegado ao fim, sendo hoje visto como antiquado e fora de moda, desajustado a um tempo acelerado e desordenado.
         Não sei se Jennifer Thomas estará a ser demasiado pessimista neste seu prognóstico tão sombrio. Mas acerta plenamente no diagnóstico: o ballet exige uma ordem e um equilíbrio que nem sempre parecem compagináveis com o ritmo alucinante dos nossos dias. Não é difícil percebê-lo: há uns tempos, já longínquos, publiquei aqui uma série de imagens de Alfred Eisenstaedt, cisnes repousantes, perto do céu.
O ballet é uma arte exigentíssima, que requer tanto esforço e trabalho como qualquer outra das mais duras actividades humanas. Aqui estão bailarinas mas poderiam estar operárias fabris, trabalhadoras das minas ou camionistas de longo curso. Há 16 anos, a fotógrafa Lucy Gray, acabada de ser mãe, decidiu retratar mulheres que conjugam a maternidade e a profissão. Um dia, por acaso, encontrou num mercado uma bailarina; falaram, conversaram-se, e Lucy começou a espreitar os bastidores do San Francisco Ballet. Durante 15 anos, acompanhou três mães-bailarinas: Katita Waldo, Tina LeBlanc e Kristin Long. Os depoimentos destas mulheres podem ser vistos aqui, o que deveras recomendo porque hoje é Dia da Mãe.
As fotografias, como disse, foram tiradas durante 15 anos, acompanhando o crescimento das crianças, feito em palco ou fora dele. Lucy Gray publicou há pouco o produto do seu trabalho: Balancing Acts. Three Prima Ballerinas Becoming Mothers. Ao apresentá-lo, disse que a maternidade tinha dado àquelas mulheres uma nova perspectiva sobre o seu trabalho, um novo olhar sobre o bailado. Não se tratou apenas de conseguir conciliar a experiência de ser mãe e uma das mais árduas profissões do mundo.  Muito mais do que isso: a maternidade enriqueceu aquelas mulheres como pessoas e como praticantes de uma arte que, dizem, está em vias de extinção. Pelo menos, foi o que aqui testemunharam as três mães-bailarinas.
Se é verdade ou não, não sei. Sei apenas que, por uma coincidência incrível, estava ver estas imagens granuladas quando, subitamente, me aparece à frente um trecho de um livrito maravilhoso que andava a ler, chamado Uma Negrinha à Procura de Deus, de George Bernard Shaw. Que diz assim:
 
«A vida é chama que está sempre a extinguir-se. Mas acende-se de novo todas as vezes que nasce uma criança. A vida é maior do que a morte, a esperança maior do que o desespero.»
 
 
Seria algo pretensioso e exageradão dedicar este texto a todas as mães do mundo, pois o Malomil não é visto em toda a parte, notando-se falhas acentuadas de visitantes da Bielorússia e da África subsaariana. Por isso, estas palavras piegas vão apenas para a Raquel, que foi mãe e depois fez uma tese, e para a Isabel, que fez uma tese e depois foi mãe. E também, claro, porque é hoje o dia, para a minha Mãe, com mãeiúscula.
 
António Araújo