quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Histórias de Berlim: o texugo de Mielke.

 
 
 
 
Fotografia de António Araújo



Agora que se aproxima o 25º aniversário da queda do Muro, algumas histórias de Berlim-Leste. Este é um texugo simpático empalhado. Reside hoje no Museu do Checkpoint Charlie, tendo vindo directamente do apartamento de Erich Mielke, o último director da Stasi. Erich Mielke matou o texugo numa caçada. E mandou colocar uma placa para recordar o feito: «Morto em 16 de Maio de 1970. Coutada de caça de Gorsldorf am Diebnitzgraben. EM». Desde que o Muro foi construído, 136 pessoas, pelo menos, foram mortas a tentar a fuga para a liberdade. 
 
  
 
 

René Burri (1933-2014).

 
 
 












quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Do pequeno nazi ao pequeno comunista: do Le Téméraire ao Vaillant.




 



 
Nos anos de chumbo da ocupação alemã de Paris (1943-1944)  circulou uma única revista de banda desenhada,  o  Le Téméraire, subintitulada "O jornal para a juventude moderna".  Sem qualquer concorrência − numa área editorial onde a competição era tradicionalmente grande − o seu sucesso não se fez esperar: cerca de 150.000 exemplares de tiragem quando interrompeu a circulação em Agosto de 1944. Mas as interrogações são muitas: como explicar que em tempos de penúria de papel pudesse circular uma publicação periódica, para mais com excelente aspecto gráfico, sem que para tal existisse uma expressa  autorização (no mínimo) do ocupante alemão?  E para que tal acontecesse não teria a revista de divulgar as mensagens  nazis e anti-semitas do ocupante? E era a referida publicação de origem alemã, se bem que formalmente dirigida por franceses e com desenhadores também franceses,  ou  pelo contrário tratava-se de uma iniciativa gaulesa com proprietários e capital francês?  E, finalmente, como explicar a transferência, finda a guerra, de  quase todos os desenhadores do nazi-fascista  Le Téméraire para o comunista Vaillant?
 
 
 
As questões têm ocupado os historiadores desde que  Pascal Ory ressuscitou dos arquivos a publicação e escreveu   Le Témérarie ou le petit nazi ilustré (1979, com 2ª edição em 2002).  Nem todas as perguntas têm tido resposta segura.
Se  bem que inicialmente Pascal Ory  apontasse na direcção germânica, ou seja, o jornal seria uma espécie de órgão de propaganda semi-oficial das autoridades militares e civis alemães tendo como destinatários os jovens franceses (à semelhança da revista para adultos Signal e de outras...), tal tese não parece hoje colher. Um artigo mais recente, publicado por Gilles Ragache em 2000  na Revue de Histoire Moderne et Contemporain e disponível onlinehttp://www.cairn.info/revue-d-histoire-moderne-et-contemporaine-2000-4-page-747.htm   − que investigou os processos judiciais do tempo da Libertação trouxe nova luz ao assunto.
Parece que o jornal terá sido  uma iniciativa de uma sociedade  comercial com capital inteiramente francês, as Éditions Coloniales et Métropolitaines , alimentada por um  grupo de homens da imprensa e da ilustração próximos do Governo de Vichy, com destaque para  Jaques Bousquet, chefe de Gabinete do Ministro da Educação Abel Bonnard  e impulsionador de movimentos de juventude fascizantes. Bousquet   foi chefe de redacção do Le Témeraire, que tinha  como secretário de redacção o jornalista André Ramon , conhecido colaboracionista,  que editará na mesma altura (1944) o jornal satírico Le Merinos (igualmente de tom ultra-colaboracionista).
Os ilustradores chamados a colaborar com o jornal − no total de 18,  a que se somaram 24 redactores − vêm quase todos do semanário Gravoche,  que se publicou em Paris até Fevereiro de 1942. Por essa altura a penúria de papel e certamente o agravamento da situação política e militar levou os alemães a impor severas condicionantes, que tiveram como resultado o desaparecimento de quase toda a imprensa juvenil em Paris (boa parte dela continuou a publicar-se em Vichy e outras cidades da apelidada «zona livre»). Em rigor, a política germânica na matéria visou no essencial proteger as publicações marcadamente colaboracionistas.
Assim, algumas aventuras iniciadas no Gavroche têm continuidade no Le Téméraire. Por exemplo o "Le Professeur Globule contre le Docteur Virus", ilustrada por Erik (André René Jolly, 1912-1974) continua com outro nome: "Le Docteur Fulminate et le Professeur Vorax".  Contudo, essa continuidade não será inócua. Pelo contrário, como veremos, ela será bem reveladora do conteúdo ideológico do novo jornal...continuidade no Le Té " Le Professeur Globule contre le Doctuer Virus" continua com outro nome : " Le Docteur Fulimate et le Pro
À pergunta se seria possível a circulação de um jornal (ainda que para jovens) em plena Paris ocupada,  sem que os alemães o autorizassem e sem que o seu conteúdo os não incomodasse... a resposta só pode ser negativa. Os estudos recentes comprovam essa autorização e as facilidades dadas quanto ao papel  para a impressão.
Acontece que a chamativa revista não se limitou ao papel de passivo  parceiro do ocupante alemão . Assumiu-se como um activíssimo veículo de colaboração naquilo que foi o mais radical registo anti-semita, pagão e imperial do nacional-socialismo.
Entre os ilustradores do Le Téméraire reconhecemos Vica, Mat, Josse,  Erik,  Poivet,  Liquois, Gire ou Rallic.  A simples enunciação destes nomes remete-nos para o Journal du Tintin e para muitas outras séries, aventuras e  publicações pós II Guerra Mundial.   Ragache, no estudo atrás citado, revela que  alguns desses ilustradores, quando interrogados no âmbito  dos inquéritos  judiciais após a Libertação,   declararam ter aceite colaborar dada  a escassez de trabalho,  remetendo a responsabilidade das mensagens e enredos  "nazis"  para os argumentistas.
A verdade é que − e tal não necessita de qualquer indagação histórica, basta ler os vários números do Téméraire − o seu conteúdo é marcadamente nazi/fascista.
Alguns exemplos: 
 
a)     a aventura "Vers les mondes inconnus", desenhada por Auguste Liquois (1902-1969), ocupava a ultima página do jornal e num registo de ficção científica, relatando a odisseia do Professor Arnoux e do seu sobrinho Norbert que num foguetão por eles concebido procuravam reconhecer a face escondida da Lua; aí Norbert encarregar-se-á de salvar  a bela Aulia das garras do usurpador Vénine (cuja pronúncia se confunde com Lénine) que se alia a um misterioso povo Gloul; se Norbert corresponde ao tipo físico ariano, os seus inimigos, designadamente o povo Gloul, são  representados de forma similar à norma caricatural do anti-semitismo  da época;
 
b) isso mesmo acontece na representação gráfica do Professeur Vorax da série que antes referimos ter sido uma continuação do  jornal Gravoche: e aí a comparação é muito óbvia, o sucessor do Docteur Virus ganha uma fisionomia caricatural do tipo semita...
 
 
 
 
 
c) alguns dos relatos e ilustrações do Le Téméraire são marcadamente anti-semitas ou, num registo diverso, exploram o isolamento da Europa "alemã" perante os ataques dos soviéticos, dos  americanos e dos ingleses. 
 
Mas o mais interessante  nesta história ocorre na transição entre o fim da ocupação alemã e a libertação de Paris. Se consultarmos o jornal Vaillant  de Junho de 1945, encontraremos de novo o traço inconfundível de Erik, Poivet, Liquois ou Jean Ache. Mais ainda: algumas das aventuras publicadas no Téméraire  têm continuação no Vaillant. Por exemplo, a aventura "Biceps costaud sentimental", de Jean Ache (Vaillant, do nº 133 ao 146)  dá continuidade à história com o  mesmo nome publicado no Téméraire (nºs 34 a 38).
 
 
 
 
 
 
 
Acontece porém que o jornal  Vaillant − que referenciava  como editor a Union de la jeunesse républicaine de France −   era propriedade  do  Partido Comunista Francês. Tratou-se de uma publicação nascida no ambiente da Libertação, substituindo o mal sucedido Jeune Patriote em 1945 e com o objectivo de conquistar um público mais amplo do que o militantes das  juventudes comunistas.
Esta  transição dos autores de BD suscita as maiores interrogações sobretudo quando sabemos do destino, por exemplo,  de Brasillach, de  Spinasse ou  Luchaire, após a libertação de Paris: os colaboracionistas da imprensa para jovens teriam escapado por completo ao processo de épuration  que ocorreu em 1944/1945 ?
Ora, a  verdade  parece ter sido um pouco mais complexa... mas mais surpreendente ainda!
É claro que os  períodos de transição política (monarquia/ república ou fascismo / democracia) têm destas particularidades: mudanças bruscas de 360º nas convicções políticas, quer por convicção quer por conveniência, radicalismos e exacerbamentos dos que de um dia para o outro passaram política e ideologicamente de um extremo a outro. 
O caso aqui relatado ultrapassa, contudo, esse lugar-comum das transições sociais e políticas.
Em boa verdade alguns dos desenhadores, como Auguste Liquois, por exemplo,  que durante a Ocupação ilustrava um relato de degradação e miséria moral dos combatentes da Resistência francesa (os maquisards) na série  "Zoubinette" publicada no jornal para adultos Le Mérinos dirigido por André Ramon ,  passaram, meses depois, no Vaillant, a desenhar um  relato exactamente oposto  de  suprema heroicidade desses mesmos maquisards (como foi o caso da série de grande sucesso "Fifi, Gars du maqui"...)
Dir-se-á que todos esses desenhadores passaram imunes ao processo de épuration. Em certo sentido, é verdade. Embora as autoridades da França Livre (onde os comunistas disputavam com os gaulistas a supremacia) tivessem aberto um processo de inquérito contra os colaboradores do Téméraire, o certo é que só um deles será condenado.
         Trata-se Vica, de seu nome verdadeiro Vincent Krassousky, nascido em 1902 em Kiev e cujo percurso se perde após a II Guerra Mundial. Mas, curiosamente, Vica será condenado não por ter desenhado para o Téméraire mas sim por ter ilustrado três álbuns violentamente xenófobos, anticomunistas, antiamericanos e antibritânicos (entre 1942 e 1943), a saber "Vica au Paradis de l´URSS", "Vica contre le Services Secrets Anglais" e "Vica défie Oncle Sam" (hoje verdadeiras preciosidades no mercado alfarrabista). Um trabalho de encomenda nazi, com textos de colaboradores alemães, sabe-se hoje. Vica foi condenado a um ano de prisão, 1000 francos de indemnização e à  indignidade nacional. Que saibamos, foi o único autor de BD condenado em tribunal por colaboração com o ocupante alemão (o caso de Hergé não é similar, até porque nunca será formalmente condenado).
Todos os outros passaram incólumes, com a justificação provável de que os argumentos não eram da sua autoria. Limitaram-se a desenhar... e os desenhadores nessa época pouca  ou nenhuma importância mereciam! 
Mas acresce um outro aspecto que ajuda a confundir ainda mais  toda esta história.
À medida que se percebia qual o destino da Alemanha na II Guerra,  alguns dos colaboradores do Téméraire, a começar pelo seu chefe de redacção, Jacques Bousquet − sim,  o mesmíssimo chefe de gabinete do ultra-colaboracionista Bonnard −,  e a terminar no  secretário de redacção,  André Ramon ,  terão aderido à Resistência. A tal ponto, a fazer fé no depoimento do próprio Bousquet em 1945, a redacção do Téméraire  "tornou-se um centro da Resistência".
A verdade é que Bousquet, "oficial das F.F.I",  terá participado nas barricadas de Paris, armas na mão,  contra os nazis,  em Agosto de 1944... justamente ao mesmo tempo que  o jornal nazi de que era chefe de redacção  se publicava  pela última vez!
Outros, como André Liquois, chegaram mesmo a aderir ao Partido Comunista ...
O caso de André Liquois merece ser sucintamente relatado. Quando os responsáveis comunistas de Vaillant descobriram o seu passado, o que ocorreu em Julho de 1946, afastaram-no do jornal. O que não impediu de ser imediatamente contratado por outra revista juvenil saída também dos meios da Resistência, a  Coq Hardi. Esta última, dirigida por Marijac,  um resistente de passado impoluto (e um autor de referência na BD francesa), só terá ganho  consciência do passado de  quem estava a contratar um ano depois ,  em Julho de 1947. Entretanto já Liquois havia fundado, com Alain Saint Ogan,  o Sindicato dos Desenhadores de Imprensa, Secção Infantil, de inspiração filo-comunista.  E,  para coroar tão extraordinário percurso, o órgão oficial do Partido Comunista, o L´Humanité,  adquirirá  e publicará  em 1955 uma série intitulada "Fra Diavolo", concebida e desenhada pelo mesmíssimo Liquois.  
Casos similares aos de Liquois multiplicaram-se;  nem todos, é claro,  da extrema-direita para extrema esquerda...
E há mesmo quem fale de  uma espécie de itinerário colectivo dos autores de banda desenhada saídos da ocupação alemã...
É provável. Mas  em todo este novelo há muita História (e histórias) por contar... e revelar!
 
 
Ricardo Leite Pinto   o naquilo que foi o registo anti-semita e inicularidade que adianta de destacarcom outro nome : " Le Docteur Fulimate et le Pro
 
 
 

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

«Mas é só um jogo de futebol...»

 


 

 
Para quem gosta de futebol não há comentário mais irritante do que este: «mas é só um jogo de futebol…». A irritação cresce quando estamos a falar do campeonato italiano. Em Itália um jogo de futebol é muito mais do que aquilo que acontece dentro das quatro linhas. Há rivalidades regionais muito fortes: entre o Norte e o Sul e todos contra as equipas romanas. E depois há rivalidades entre equipas da mesma cidade que são verdadeiros hinos ao futebol. Basta olharmos para um Roma-Lazio. A primeira cidade italiana que visitei foi Milão e tive a sorte de conseguir ver um Inter-Milan. Foi uma experiência inesquecível e não poderia ter tido uma melhor introdução ao espírito italiano. Há ainda o derby de Turim entre a Juventus e o Torino mas este tem perdido destaque face ao longo jejum do Torino (desde 1976) em matéria de campeonatos.
Mas é, sem dúvida, a rivalidade entre as regiões que nos mostra como o futebol é um espelho da História. Sem esta não nos é possível compreender o «fenómeno futebol» neste país. O território a que chamamos Itália só se tornou realidade na segunda metade do século XIX sob a égide do Risorgimento como tão bem nos contam Derek Beales e Eugenio F. Biagini. O processo de unificação italiana foi bastante complexo e nada evidente. Não só o território estava dividido entre vários estados como cada um deles reivindicava uma história e cultura riquíssimas. O movimento de unificação da segunda metade do século XIX teve que enfrentar uma forte tradição de autonomia e independência nas várias regiões italianas. Ao longo da história, o território italiano não foi «só» o Império Romano mas também cidades-estado como Veneza e centros de cultura como Florença. Já para não falar de Roma e a sua história temporal e religiosa. No fundo, há várias «Itálias» e a relação entre estas tem sido tensa ao longo dos tempos. São um caso claro da dificuldade de construção de um estado-nação quando as várias regiões que o compõem reivindicam uma história e existência secular. Nalguns casos como o de Veneza estas «regiões» foram mesmo protagonistas da História. Ficou célebre a frase atribuída a Massimo Taparelli, Marquês de Azeglio, proferida em 1861: «agora que fizemos a Itália temos de fazer italianos».
É este contexto histórico que nos permite compreender a heterogeneidade e a profunda riqueza cultural que caracteriza a Itália do Norte ao Sul. Assistir a um jogo em Itália implica ser testemunha desta história e só assim percebemos o que está «em jogo» quando a Roma ou a Lazio jogam com o Nápoles. Ou mesmo quando as equipas do «Norte», em especial a Juventus e as duas equipas de Milão, jogam contra os clubes da capital. Neste sentido os clubes são representantes das suas cidades, regiões e história. Paralelamente, o futebol serve como «válvula de escape» para sentimentos regionalistas que continuam a imperar na sociedade italiana e que, nalguns casos, têm sido instrumento de afirmação e combate político como é o caso da Liga Norte.
A primeira equipa italiana que me deixou sem palavras foi o Milan de Arrigo Sacchi e dois jogadores em particular: Franco Baresi e Paolo Maldini. Foram jogadores de outro mundo.

 


O Milan voltaria à ribalta com Fábio Capello e Carlo Ancelloti mas foi a Juventus de Marcello Lippi que me ficou no coração. Lembro-me daquela equipa liderada por Gianluca Vialli e Alessandro Del Piero que triunfou na prova europeia em 1996 face ao Ajax. Talvez influenciada pela carreira política do proprietário do Milan hoje sofro pela Vecchia Signora.

(http://bleacherreport.com/articles/2050987-juventus-capture-2013-14-italian-serie-a-championship-after-roma-loss)

 
Muito se tem dito sobre a perda de qualidade do campeonato italiano nos últimos anos e também em relação ao facto das suas equipas estarem arredadas dos lugares de topo da Liga dos Campões desde há vários anos. Essa é uma realidade incontornável face a dois campeonatos: o inglês e o espanhol. Os grandes, grandes craques estão no Barcelona, Real Madrid, Chelsea, Man. United ou Manchester City. E persistem problemas sérios no futebol italiano tais como a questão das apostas e a violência das e entre as claques. Em relação a este último há muitos casos em Itália mas talvez o melhor (ou o pior) exemplo tenha sido a final da Taça da Itália do ano passado. Apesar de a final ter sido disputada entre o Nápoles e a Fiorentina, duas equipas cuja rivalidade entre si não é relevante, os distúrbios foram tão fortes que levaram ao atraso do jogo. Isto porque a final foi disputada em Roma e houve confrontos entre os adeptos do Nápoles e os da Lazio nas ruas da capital. Foi triste ver o capitão do Nápoles, o eslovaco Marek Hamsik, a ter de negociar com os líderes dos ultras para que se pudesse dar início ao jogo em segurança…
Por outro lado, o futebol italiano necessita de um maior investimento de modo a tornar os estádios mais confortáveis, modernos e «mais próximos» do campo. Este investimento já foi feito pela Juventus que inaugurou o seu novo estádio em 2011.

(http://www.juventus.com/juve/en/stadio-e-museo/stadio/stadio/cerimonia)

Os proprietários norte-americanos da Roma anunciaram recentemente os planos de construção de um novo estádio que terá lugar em 2016. Também é um sinal revelador o interesse crescente de investidores estrangeiros nos clubes italianos como é o caso do Inter e sobre esta nova realidade falaremos noutra altura.
 
No fundo, em relação ao campeonato italiano eu argumentaria o seguinte: o Calcio não aderiu ao futebol «espectáculo» e mantêm a sua forte identidade defensiva e também tática. E é esta justamente a razão pela qual sigo o Calcio e vejo sempre os jogos da Juventus e da Roma e, se possível, o do Milan. É verdade que tenho uma profunda admiração pela capacidade defensiva de uma equipa e por isso posso estar a ser parcial. Ainda assim, parece-me que o futebol italiano tem conseguido manter a sua identidade ao mesmo tempo que se tem tornado mais «espectacular» nos últimos anos. O comentário habitual de que «não há golos e emoção» perde legitimidade face a jogos emocionantes como, por exemplo, o Inter – Napóles do fim-de-semana passado ou a vitória do Milan face ao Parma por 5-4.
Por outro lado, há claramente duas equipas cuja evolução tem sido no sentido de chegar ao topo do futebol europeu: a Juventus e a Roma. Olhando para as sete jornadas do campeonato diria que, apesar da derrota em Turim, a Roma está mais próxima da qualidade da Juventus. Para além da enorme controvérsia que este jogo tem dado e que levou à suspensão do árbitro, Gianluca Rocchi, até ao fim do mês, o golo de Bonucci que deu a vitória à Juventus por 3-2 não convenceu. A equipa liderada por Rudi Garcia parece mais determinada a disputar com a Juventus o Calcio. Mais ainda, a diferença pontual foi encurtada com o empate da Juventus na última jornada no campo do Sassuolo. Até que ponto é que Massimiliano Allegri vai estar à altura da herança de António Conte e do tricampeonato é uma questão em aberto.
Igualmente determinante vai ser a prestação destas duas equipas na Liga dos Campeões. A Juventus parece ter à partida a vida mais facilitada num grupo que inclui o Atlético de Madrid, o Malmö e o Olympiacos. No entanto, a Juventus precisa de ganhar o próximo jogo em casa perante os gregos depois de ter perdido no Vicente Calderón com um golo de Arda Turan. Mas é a Roma que tem um grupo «impossível» com o campeão inglês, o Manchester City e os vencedores da Bundesliga, o Bayern de Munique. A Roma já conseguiu impor ao City um empate fora e recebe agora o colosso alemão. Vai ser um jogo duro e a equipa de Pep Guardiola bem pode esperar uma torcida romana fervorosa e um jogo «combatido» até ao último segundo. Não sabemos como vai terminar este jogo mas diria que há uma coisa certa: a recepção especialmente calorosa a Benatia…

 

(http://www.as.roma.it/stadio-olimpico-roma.html)
 
Se é certo que o futebol italiano é revelador das várias «Itálias» e da dificuldade de construir um estado-nação com uma história riquíssima é em Espanha que a questão «regional» tem sido levada ao limite. Temos assistido nos últimos tempos a uma forte discussão e controvérsia à volta do referendo/consulta popular na Catalunha. Este contexto político estará presente no clássico do próximo sábado no Santiago Bernabéu entre o Real Madrid e o Barcelona. A equipa da casa parece finalmente ter seguido as palavras do seu treinador, Carlo Ancelloti, de que o Real era como um motor a diesel: lento a começar mas poderoso. As goleadas na Liga espanhola tem sido habituais e Cristiano Ronaldo já tem 15 golos em oito jornadas… Do lado catalão este será o primeiro grande teste interno para Luis Henrique e o jogo terá igualmente três ingredientes especiais: será que Leo Messi vai marcar dois golos e ultrapassar o record de 251 golos de Telmo Zarra passando a ser o maior goleador de todos os tempos da Liga Espanhola? Será que é desta que Cláudio Bravo irá sofrer um golo nesta temporada? Já para não falar do toque uruguaio de Luís Suarez.
Voltaremos a Espanha daqui a uma semana.



Raquel Vaz-Pinto


 

Nunca vimos nada assim.

 
 

 

 
Nunca vimos nada assim.
German Concentration Camps Factual Survey.
Amanhã, no DocLisboa.
 
 
 

domingo, 19 de Outubro de 2014

Gymnopédies paralelas, tangentes e secantes.

 
 
 
Madison Square, New York.

Sixth Avenue, New York.
 
Trump Tower, Fifth Avenue, New York.
 
Whitney Museum of Art, New York.

Composição mondrianesca com Rothko, Philadelphia Museum of Art.

Na Brooklyn Bridge, New York.

Park Avenue, New York.

432 Park Avenue, New York.

High Line Park, Tenth Avenue, New York, I.

High Line Park, Tenth Avenue, New York, II

Hudson River Park, New York.

Fifth Avenue, New York.





 
Fotografias de Eduardo Cintra Torres